A Urbia, concessionária responsável pelo Ibirapuera, apresentará nesta quarta-feira (11) ao Conselho Gestor do parque na zona sul de São Paulo a sua proposta para criar uma área para exercícios indoor, como musculação e crossfit, em uma estrutura do espaço conhecida como “Antiga Serraria”. Nas últimas décadas, o espaço tem sido habitualmente frequentado por adeptos do ioga, tai chi chuan e outras práticas corporais meditativas.
Apesar de afastar um temor que tem sido alardeado nas redes sociais de que a área será transformada em um centro comercial –como um projeto anterior da concessionária chegou a indicar– essa alteração também enfrenta resistência de grupos ligados à conservação ambiental e histórica da cidade, cuja mobilização resultou na retirada do tema da pauta do Conpresp (conselho municipal de preservação do patrimônio) na última segunda-feira (9).
A construção dos anos 1930 é remanescente de uma oficina de bondes desativada que nos anos 1990 foi integrada a uma praça projetada pelo paisagista Roberto Burle Marx(1909-1994). A localização da estrutura de mais de cem metros de comprimento e pé-direito de mais de dez metros é um ponto central do debate no Conpresp.
Enquanto a Urbia defende que a utilização da estrutura não interfere no tombamento histórico do Ibirapuera, pois a presença do prédio no local antecede a construção do parque, nos anos 1950, grupos contrários alegam que Burle Marx colocou a serraria como elemento central da praça, valorizando o projeto paisagístico original de Otávio Augusto Teixeira Mendes (1907-1988).
Como a estrutura é sustentada por colunas sem fechamento que formam 14 vãos livres, a integração visual e física entre os dois lados da praça Burle Marx é completa. O projeto da Urbia prevê o fechamento com vidros de pouco mais da metade desse espaço, além de revestir dois dos vãos com um madeiramento para a construção de vestiários.
Outro ponto sensível seria a instalação de uma laje, criando assim um mezanino onde seriam instalados equipamentos de academia. Essa intervenção afeta uma característica estética particular do espaço porque a ausência de uma laje cria uma vista livre das tesouras de madeira que sustentam o seu telhado de duas águas.
Em uma das pontas da estrutura está suspenso, próximo ao teto, um guindaste ou ponte rolante com capacidade de içamento de 15 toneladas –possivelmente utilizado no passado para erguer bondes ou madeira.
A Urbia afirma que manterá livre a vista para este equipamento, pois o mezanino ocupará 86% da extensão do prédio. Também haverá uma abertura de 11 metros no centro, onde será instalada uma escada.
Adaptações que não reduzem o impacto no espaço, segundo Cássia Mariano, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie e especialista no paisagem do Ibirapuera. “Qualquer intervenção que tire a possibilidade de transposição física completa descaracteriza completamente o projeto de Burle Marx”, diz a arquiteta.
Permeando a discussão sobre o patrimônio está a exploração comercial de áreas do parque, recurso amplamente utilizado pela Urbia para viabilizar as intervenções que realiza no local desde que ganhou a concessão de exploração por 35 anos em 2020.
A proposta da concessionária para a nova área voltada a bem-estar e atividades físicas é que o local seja explorado por uma empresa privada, que poderá exigir algum tipo de relação comercial para dar acesso ao local para frequentadores.
Um exemplo próximo disso é a Casa Nubank Ultravioleta, espaço que oferece área de vestiários e descanso exclusivamente para clientes do banco patrocinador no mesmo setor do parque, próximo ao portão sete.
Samuel Lloyd, diretor da Urbia, afirma que esse tipo de exploração é necessária para viabilizar projetos de manutenção da estrutura do parque. A reforma completa de todo o complexo da serraria, incluindo benfeitorias já entregues como a requalificação da praça Burle Marx e restauro do espelho d’água, está estimada em R$ 35 milhões.
Lloyd afirma que o projeto não vai interferir na arquitetura, pois a construção de mezanino em 86% da área e o fechamento de 54% do espaço ainda permitirá a fruição pública. “Quem está contra são as pessoas que sempre estiveram contra a concessão”, diz.
O representante da concessionária afirma que projeto atual avança significativamente no cuidado com a manutenção das características originais do espaço, se comparado à versão anterior que já havia sido submetida aos órgãos de preservação do patrimônio. Além do tombamento municipal, o parque também é tombado nas esferas estadual e federal.
Entre as melhorias no projeto, segundo Lloyd, a estrutura atual poderá ser completamente removida ao final da concessão, enquanto a proposta anterior previa o fechamento de parte dos vãos com paredes de alvenaria.
Integrante do Conselho Gestor do Ibirapuera, Sylvia Mielnik afirma que, independentemente da alteração arquitetônica proposta pela Urbia, a ampliação da exploração comercial de áreas do parque tem interferido em funções prioritárias do espaço, voltadas à preservação ambiental, descanso e contemplação.
“A serraria está situada na zona ambiental do parque, onde devem prevalecer diretrizes de preservação e baixa interferência”, afirma Mielnik.
noticia por : UOL









