Que talvez seja mesmo a “bíblia do isentão”. E tudo bem. Acho que já passou da hora de destruirmos essa palavra estúpida e maléfica. E este texto é uma tentativa de pegar quem xinga o moderado de “isentão” pelo pescoço e… E nada. Porque sei que se trata de uma batalha perdida.
Quando me refiro à “bíblia do isentão” estou falando de “Nem Comunista, Nem Fascista”, livro em que o jornalista Diogo Schelp prega a moderação no discurso político (e, vá lá, na vida) como única saída civilizada para a disputa aguerrida entre direita e esquerda, conservadores e progressistas. Ou, no nosso contexto, lulistas e bolsonaristas.
Um estrago danado
E vou dizer mais. Vou dizer que o livro, em mim, fez um estrago danado. Porque me parece que a um cristão é impossível não enxergar o chamado à temperança contido na ideia de moderação no discurso. O problema é o preço a se pagar por isso. Quem está disposto? Será que estou? Você está? Ah, duvido. Fala a verdade! Ahã. Sei.
Não sei. Tem dias que sim. Dias em que acordo pensando “podem me chamar do que quiser, dane-se!, estou aqui em defesa da verdade, sou falho, contraditório e incoerente mesmo, e não tô nem aí”. Mas tem dias que não. São dias em que também preciso me sentir parte de alguma coisa. Senão enlouqueço. Pode não parecer, mas sou humano e bem mais falho do que gostaria.
“Só sei que nada sei”
Tampouco sei se a postura mais à esquerda, mais à direita ou moderada é uma questão de escolha. Nos últimos tempos, aliás, tenho percebido que o discurso moderado tem um jeito todo especial de se impor, porque é impossível alcançar os extremos do amor ao próximo sem se colocar no lugar do outro e, meu amigo!, quando você consegue se colocar no lugar do outro é impossível (impossível!) julgá-lo com a intolerância virulenta típica dos extremos.
No livro, Diogo Schelp aprofunda a ideia e dá vários exemplos que levam o leitor a uma conclusão inequívoca: a de que a moderação, isto é, a recusa a defender ideias extremistas ou, pior, comprar o pacote ideológico completo, seja ele à direita ou à esquerda, é a única postura que pressupõe algum tipo de humildade. Uma humildade intelectual que remonta à velha máxima socrática do “só sei que nada sei”, e que Schelp usa para destruir certezas fanáticas, não para fugir de escolha.
Maldito seja!
E vou além: a moderação é a postura mais próxima de quem, se reconhecendo falho e pecador, ama, ama de verdade, o próximo. De quem defende a dignidade da pessoa humana, de quem acredita no poder da razão e do diálogo e de quem acredita, acredita de verdade, que o ser humano é vocacionado para a excelência. Porque essas são convicções cristãs que os extremos ideológicos contornam, quando não esmagam.
De volta ao custo social disso, porém. É alto. Bem alto. Tudo por causa de um neologismo que não sei quem cunhou, mas sei que quem cunhou está no inferno: isentão. Ah, maldito seja quem inventou um termo pejorativo para execrar quem se recusa a ceder à raiva irracional ou quem bate com a porta na cara dos ideólogos, seus diagnósticos e remédios abrangentes para a condição humana!
Olhar essencialmente caridoso
Sei, contudo, que é impossível lutar contra uma palavra quando ela dialoga tão bem com o espírito do tempo. Uma palavra que brota da ignorância de quem, intencionalmente, confunde o discurso moderado com a permissividade, a covardia e o relativismo. Quando, na verdade, nada exige mais rigor, coragem e posicionamento do que o olhar desapaixonado, racional e essencialmente caridoso da moderação.
De qualquer modo, e na remotíssima hipótese de você se interessar em ler “Nem Comunista, Nem Fascista”, digo que cheguei ao fim dele esmagado. Porque hoje sei que a moderação é uma cruz pesada que os que se recusam a abrir mão da liberdade, liberdade mesmo, liberdade com L maiúsculo, li-ber-da-de, carregamos. Uma cruz da qual não podemos abrir mão sem que nos custe um pedaço da alma.
O momento mais aguardado
E assim chegamos a ele, o momento mais aguardado do texto. O fim. Pode fustigar e açoitar e malhar e xingar. Ou então se pergunte: “Por que o discurso moderado me incomoda tanto? O que isso diz sobre mim?” Fique à vontade. Você é livre – ou pelo menos acredita ser. No mais, entendo seu medo de ser o homem que vai contra a corrente. Muito mais fácil é se juntar ao coro dos que pedem a soltura de Barrabás. Entendo mesmo. Afinal, também já fui assim.
Mas, aproveitando que estamos na Quaresma, talvez valha a pena dizer que os tempos exigem uma verdadeira conversão à moderação. E conversão é sempre algo muito difícil. Porque custa. Custa amizade, admiração e senso de pertencimento. De qualquer modo, para quem está disposto a pagar o preço, recomendo entusiasmadamente a leitura de “Nem Comunista, Nem Fascista”, de Diogo Schelp. Para quem não está disposto, não recomendo. É perda de tempo.
noticia por : Gazeta do Povo







