Exército gasta R$ 1,3 bi em novos mísseis e blindados e cita experiências na Ucrânia e Palestina

O Exército gastou, durante o governo Lula (PT), R$ 1,27 bilhão na compra de mísseis que combatem carros e na aquisição de tanques blindados com capacidade anfíbia e canhões de maior alcance, com o propósito de que “as forças terrestres estejam preparadas para enfrentar ameaças contemporâneas e futuras”.

Os dados foram fornecidos à Folha pelo Exército com base num pedido via LAI (Lei de Acesso à Informação).

As compras de 220 mísseis anticarros, a um custo de R$ 153,8 milhões, ocorreram em 2025. Envolveram dois lotes: um de 100 mísseis Javelin FGM-148F, a partir de um acordo da Comissão do Exército em Washington com o governo dos Estados Unidos, e outro de 120 mísseis 1.2 AC Max, resultado de um contrato para fabricação por uma empresa em São José dos Campos (SP).

A reportagem questionou, no pedido via LAI, a motivação para as compras desse novo armamento. O objetivo, no caso dos mísseis, é “aprimorar a capacidade de dissuasão do Exército brasileiro”. “A obtenção de um armamento coletivo anticarro é crucial para fortalecer a linha de defesa em operações de combate terrestre”, disse a Força.

O Exército citou ainda a guerra territorial entre Rússia e Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, e os conflitos na Palestina, alvo de ofensivas de Israel.

“As recentes experiências observadas na guerra da Ucrânia têm demonstrado a importância de sistemas anticarros eficazes na defesa contra avanços blindados”, disse. “As forças ucranianas, utilizando mísseis anticarro portáteis, conseguiram deter e neutralizar colunas blindadas, causando significativas baixas aos agressores.”

No pedido via LAI, a reportagem questionou se mísseis e tanques blindados com especificações semelhantes haviam sido adquiridos antes de 2023. O Exército informou uma única compra, feita em 2021, de 100 mísseis portáteis anticarro Spike LR2, de fabricação israelense.

“Em conflitos na Palestina, a utilização de armamento anticarro tem sido uma tática eficaz para resistir a forças mecanizadas superiores, demonstrando a importância de tais armas para forças que operam em ambientes urbanos e irregulares”, afirmou o Exército.

No caso dos tanques blindados, houve a aquisição de 163 carros entre 2023 e 2026, sendo a grande maioria do modelo VBTP (viatura blindada de transporte pessoal) MSR 6×6 Guarani. Os gastos somaram R$ 1,12 bilhão, conforme os dados do Exército.

Militares que acompanharam de perto a tomada de decisões sobre essas compras, dentro do programa chamado Forças Blindadas, afirmam que o principal motivador para a iniciativa foi a ofensiva da Venezuela sobre a Guiana.

No fim de 2023, o ditador Nicolás Maduro se movimentou para tomar parte da Guiana –a região de Essequibo. As ofensivas prosseguiram em 2024, e uma ação do tipo implicaria invasão de tropas venezuelanas em território brasileiro. Setores de inteligência brasileiros chegaram a detectar a possibilidade de Maduro comandar uma invasão à Guiana por terra.

Isso levou as Forças Armadas brasileiras a mobilizar aviões, tropas, carros blindados e mísseis para Roraima, região de fronteira com a Venezuela.

A partir daquele momento, o entendimento entre militares com poder de decisão era de que o Brasil precisava de equipamentos mais potentes, especialmente para ofensivas terrestres, em razão da força militar dos venezuelanos, que operavam carros russos, segundo essa leitura.

Desde a crise de Essequibo, o cenário mudou radicalmente. Nos primeiros dias deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou um ataque militar em Caracas –numa intervenção sem precedentes contra a América do Sul– e a captura de Maduro, levado a Nova York para ser julgado por supostos crimes relacionados a tráfico de drogas.

Diante da ofensiva, Lula manifestou preocupação sobre o que ocorrera no país vizinho e pediu aos militares uma leitura de cenários sobre as vulnerabilidades do Brasil diante de um ataque do tipo, como a Folha mostrou em reportagem publicada em fevereiro.

Na segunda-feira (9), durante visita do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, a Brasília, Lula exteriorizou a preocupação com uma invasão aos moldes da que ocorreu na Venezuela.

“Aqui, na América do Sul, nós nos colocamos como uma região de paz, aqui ninguém tem bomba nuclear”, disse o brasileiro. “Não sei se o companheiro Ramaphosa percebe que se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente.”

Na quinta (12), o governo Lula se manifestou de forma contrária a uma visita de um conselheiro de Trump ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão. Segundo manifestação de Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, ao STF (Supremo Tribunal Federal), a visita de Darren Beattie a Bolsonaro significaria “ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”.

A crise escalou e, na sexta (13), o Itamaraty comunicou que revogou o visto de Beattie por “omissão e falseamento de informações” sobre o motivo da visita.

No pedido de informações ao Exército, feito por meio da LAI, a reportagem solicitou a distribuição geográfica, por batalhão e estado, do armamento adquirido. A Força negou fornecer os dados, mesmo após um recurso contra a decisão. “A solicitação busca informações de defesa nacional, comprometendo a proteção que se deve garantir ao sigilo de Estado”, afirmou.

A informação poderia colocar em risco a defesa e a soberania nacionais e prejudicar operações estratégicas das Forças Armadas, conforme a resposta do Exército.

O próprio Exército já divulgou que parte dos equipamentos foi enviada a unidades em Roraima e à 1ª Companhia Anticarro Mecanizada, em Osasco (SP). Testes com mísseis já foram feitos no Rio, e brigadas no Paraná receberam tanques blindados.

O fornecimento dos mísseis 1.2 AC Max é feito pela empresa SIATT Engenharia, Indústria e Comércio, sediada em São José dos Campos. Há contratos assinados com o Exército entre 2019 e 2025.

Já a fabricação dos blindados Guarani, na configuração nova definida pelo Exército, está a cargo da IDV Brasil, que fica em Sete Lagoas (MG). Um único contrato tem valor de R$ 7,5 bilhões, referente à aquisição de centenas de veículos blindados pela Força até 2040.

O míssil fabricado no Brasil é de médio alcance e é composto por munição e unidade de tiro. Essa unidade emite um laser invisível codificado, harmonizado com a mira, o que guia o míssil durante o voo.

Já o blindado Guarani 6×6 pode se mover em diferentes terrenos e na água. Pesa 18 toneladas e atinge 110 km/h, com autonomia de 600 km.

noticia por : UOL

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