Posso até perdoar camisetas e camisas, mas jamais calças e casacos sem bolsos. Por que privar uma pessoa de tão útil caçapa? O ser humano evoluiu, mas não a ponto de ter dois marsúpios onde apoiar as extremidades de seus braços desajeitados. Bolsos são, portanto, uma necessidade quase fisiológica dos Sapiens.
Às vezes, psicológica, já que aliviam a sensação de exposição dos tímidos, que metem as mãos nos bolsos, encolhendo também os ombros, como se pudessem desaparecer através desses gestos. Por outro lado, algibeiras chegam a ser quase objetos de castração em sujeitos de origem italiana, que dependem de gesticular para se fazer ouvir.
Eu, que vivo passando frio, encontro nos bolsos um abrigo, um tecido a me dizer que sou digna de calor e carinho, que meu pescoço pode até estar desamparado, mas meus dedos, esses trabalhadores digitais que ganham o meu pão e simultaneamente o gastam, jamais!
Mas o que me fascina mesmo nos bolsos nem é o abrigo para a carne, mas para a coisa. Veja que depósito fantástico é um bolso. Na sua minimitude somos obrigados a carregar apenas o essencial. Em um mundo de tantos acúmulos, somos obrigados a pensar: do que realmente preciso?
Há quem não saia sem um maço de cigarros. Sem um batom. Sem uma caneta. O que uma pessoa leva no bolso revela muito sobre ela. Ou, ao menos, sobre ela num certo momento. Camisinha no bolso: esperança. Lenço: saúde frágil ou mania de limpeza. Pente: vaidade. Fósforos: escotista ou maconheiro. Fósforos e óculos escuros: provavelmente maconheiro. Fósforos, óculos escuros e colírio: certamente maconheiro. Fósforos, óculos escuros, colírio e chaveiro do Bob Marley: maconheiro e panfleteiro.
Se não fossem os bolsos, onde João, dos irmãos Grimm, colocaria as pedrinhas que marcariam seu caminho de volta para a casa? Se não fosse o bolso do avental, onde Maria colocaria as migalhas de pão que seriam devoradas pelos pássaros na segunda tentativa de voltar?
A literatura tem mais bolsos do que uma calça cargo. Um dos meus preferidos é o de Leopold Bloom, personagem de Ulisses que, por recomendação da mãe, carregava uma batata como amuleto. Saísse sem a batata no bolso e já acharia seu dia arriscado, daí a mania de conferir se tinha consigo o tubérculo prodigioso.
No cinema, bolsos também são estrelas. Receptáculos fundamentais para o desenrolar de certas narrativas. Quantas armas nos bolsos escondem os personagens da máfia? Quantas facas nos bolsos escondem os delinquentes juvenis?
No Brasil, um homem de 90 anos com um canivete na calça é vontade de descascar uma laranja. Um de 17 com a mesma lâmina é perigo.
No mais, o celular já roubou o espaço de muita coisa. Onde tinha a Bíblia, tem o vídeo do pastor. Onde tinha a bússula, tem o Waze. Onde tinha o dado ou a cartela da loto, tem o app de apostas. Onde tinha o espelhinho, tem a câmera.
Ainda assim, nada substitui o potencial fossilizante dos velhos bojos. Tal qual uma arqueóloga, adoro quando encontro nos bolsos de peças que há muito não uso um ingresso amassado, um bilhete esquecido, uma folha seca, uma arcaica nota de dinheiro, um confete de outros carnavais. Bolsos contam histórias e também por isso adoro me esgueirar por suas dobras.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL








