Revolução silenciosa: por que as escolas clássicas crescem no Brasil 

A educação brasileira, sobretudo a pública, já viveu dias melhores. A combinação de baixa qualidade pedagógica e esfacelamento moral tem se tornado cada vez mais evidente.

Talvez não seja por acaso que o movimento da educação cristã clássica está em ascensão no Brasil. Atualmente, quase 7 mil crianças são educadas em Escolas Cristãs Clássicas (ECCs) pelo país, de acordo com dados da Classical Press (CP).  O  número real tende a ser muito maior, já que contempla apenas escolas que utilizam o sistema CP.

Lucas Evangelista é fundador da Classical Press e diretor da Escola Cristã Mercês de Alencar (ECMA), uma das primeiras desse tipo no Brasil. Ele afirma que de 2023 para cá a  adesão de escolas que adotam o sistema CP mais do que triplicou. Esse número contempla tanto escolas que estão mudando de modelo educacional e adotando a perspectiva cristã clássica, quanto novas escolas que já nascem com essa proposta. 

Uma dessas escolas é a Virtus,  localizada em Brasília. A instituição começou em 2024 quando a família de Leonardo Santiago buscava por uma escola para seus filhos. Frustrados com o que encontraram, viram no modelo clássico o que não encontraram em nenhum outro: rigor acadêmico e confessionalidade levada a sério.

“Os péssimos resultados do sistema educacional brasileiro e a evidente falha moral e de formação virtuosa nas crianças e nos alunos me fizeram estudar outras alternativas à educação moderna e construtivista. Além disso, tínhamos uma preocupação sobre a educação que deveríamos dar aos nossos filhos como cristãos. Quando comecei a pesquisar, me deparei com o movimento clássico, já bem estabelecido nos Estados Unidos, e vi os resultados e a efetividade dessa educação para a formação de cidadãos virtuosos e bem preparados”, conta Leonardo, fundador e diretor executivo da Virtus. 

A escola, que começou com apenas 31 alunos, viu seu número aumentar em 600% no segundo ano de operação e hoje já está no limite de sua capacidade com 355 alunos e uma  lista de espera de mais de 200 alunos.

Outro caso é o da escola Trinitas, em São Paulo, que começou sua operação em 2019 e hoje já conta com 3 filiais em diferentes regiões do estado de São Paulo e pretende abrir mais duas em outras regiões do Brasil no ano que vem. Até agora, são quase 400 alunos matriculados. 

Já a Escola Internacional Cidade Viva, localizada em João Pessoa, foi uma das escolas que fez a transição de outro modelo educacional para o cristão clássico. 

“Nós já éramos uma escola cristã, mas não tínhamos um método específico estabelecido. Seguíamos o que geralmente se via nas faculdades, como sociointeracionismo, Vygotsky, e o que chamamos hoje de educação moderna. Mesmo sabendo que essas metodologias apresentavam problemas, as aplicávamos com ressalvas. Não existia algo tão bem delimitado”, explica Thiago Dutra, chanceler da Fundação Cidade Viva. Ele conta que quando eles tomaram conhecimento da educação cristã clássica, viram que nesse modelo havia algo muito bem definido, estabelecido e testado pelo tempo. “Começamos a fazer uma transição porque percebemos que a educação cristã clássica tinha uma validade histórica de aplicação e muito valor para o que entendemos como educação cristã”, diz.

Ele conta que a transição durou entre dois e três anos e envolveu desde a criação de materiais até a comunicação aos familiares. “Nós sempre fomos uma escola grande e com poucas vagas, mas depois da transição para o clássico percebemos que a nossa lista de espera passou a ter praticamente a mesma quantidade de alunos da escola. A aceitação dos pais e a procura na cidade tem sido muito positiva”, conta. 

Como a escola vai do Ensino Infantil ao Médio, a transição precisou ser gradual. Além dos esforços para mudar aos poucos o dia a dia da escola, a Faculdade Internacional Cidade Viva abriu uma Pós-Graduação em educação cristã clássica justamente para formar os profissionais necessários para essa empreitada.  “Os primeiros alunos que formamos foram os nossos funcionários. Hoje já estamos na oitava turma da pós e já formamos mais de 2 mil alunos no Brasil”, relata Thiago.

Com o aumento de escolas aderindo ao modelo, em junho deste ano surgiu a Associação de Escolas Cristãs Clássicas (ACCS) no Brasil em um evento que reuniu pelo menos 50 escolas de diversos lugares do país. É um esforço inicial para apoiar o movimento de educação cristã clássica no país, dando suporte pedagógico e administrativo para escolas que já existem, escolas que querem migrar para essa metodologia e pessoas interessadas em uma dessas escolas. 

“A importância dessa associação é trazer um direcionamento para o movimento, ao mesmo tempo em que encoraja a unidade dentre aqueles que têm se dedicado à essa missão. É uma associação bem consolidada nos Estados Unidos, que tem se espalhado pelo mundo e chega agora ao Brasil”, diz o Rev. Rodrigo Brotto, presidente da ACCS Brasil.  

O que são Escolas Cristãs Clássicas? 

As escolas cristãs clássicas são conhecidas por adotarem um modelo educacional baseado nas Sete Artes Liberais e no Trivium Medieval, além de enfatizarem o ensino de línguas clássicas e leitura dos grandes livros que formaram a sociedade ocidental. Elas também defendem uma forte integração com a fé cristã histórica, que se expressa em todo o currículo. 

A lista de diferenciais inclui ainda a integração bíblica ao currículo,  e o ensino do latim e do grego (além de línguas modernas). 

Essas diferenças representam um afastamento significativo da educação moderna, secular e das escolas cristãs convencionais. 

Por que famílias estão aderindo a esse modelo? 

Dentre os principais motivos que as famílias citam para a transição para essas escolas estão: a frustração com outros modelos de educação, a busca por uma educação mais alinhada com seus princípios e valores e o desejo por um ensino mais rigoroso e robusto academicamente. Algumas famílias também relatam que fizeram a transição do homeschooling para escolas cristãs clássicas, ora por uma questão de logística familiar, ora por medo de denúncias, já que a regulamentação do ensino doméstico segue incerta no Brasil. 

É o caso da família de Moriá Schwartz. Ela conta que seus filhos chegaram a estudar em uma escola cristã em Brasília, mas a família não ficou satisfeita nem com o ensino, nem com a confissão de fé que, segundo eles, era muito vaga. 

“Eu sempre desejei o homeschool, mas meu marido tinha resistência. Chegamos a fazer por um ano, mas ele estava incomodado por conta da instabilidade jurídica no Brasil”, relata Moriá. Ela conta que durante o ensino domiciliar, eles aplicaram o método clássico e tiveram certeza de que era o que queriam para sua família. “O método cristão clássico nos ajuda a preparar nossos filhos não apenas para exercerem uma profissão ou passarem num teste, mas sim serem verdadeiros homens e mulheres que vivem para a glória de Deus e são excelentes em tudo que fazem”, diz.  A solução veio quando a Virtus, primeira escola cristã clássica de Brasília, abriu as portas e eles puderam, então, matricular seus três filhos.   

“Hoje vendo meus filhos tendo uma educação clássica, me dá até vontade de voltar para a escola. O fato de se buscar fazer tudo para a glória de Deus faz toda a diferença na vida dos nossos filhos. Nós vemos que a escola não prepara os alunos apenas para um teste, mas para serem bons cidadãos e servos de Cristo”, ela relata.  

O movimento cresce internacionalmente

Segundo a Forbes, as 1.551 escolas clássicas nos Estados Unidos tinham  677.500 alunos matriculados no ano letivo de 2023-2024. As projeções indicam que esse número poderá chegar a 1,4 milhão até 2035.

Além disso, a ACCS, que chegou ao Brasil recentemente, conta com 500 escolas no rol de membros representando mais de 68 mil alunos somente nos Estados Unidos. Eles também registraram um aumento expressivo de seus números ao redor do mundo. Hoje são mais de 4 mil alunos fora dos Estados Unidos representando mais de 20 escolas em pelo menos 16 países. Eles relatam um aumento de mais 40% no número de alunos internacionais nos últimos 5 anos. 

Tal aumento, fez com que surgisse a International Classical Christian Alliance (ICCA), braço internacional da ACCS, que busca apoiar escolas, equipar líderes, treinar educadores e compartilhar recursos pedagógicos ao redor do globo. 

O que dizem as pesquisas? 

Um estudo conduzido pela Universidade de Notre Dame, denominado The Good Soil Project, investigou os efeitos de longo prazo de diferentes modelos educacionais. A pesquisa ouviu mais de 1.800 ex-alunos, entre 24 e 42 anos, e comparou os resultados de seis modalidades de ensino: escolas públicas, escolas privadas seculares, escolas católicas, escolas evangélicas, ensino domiciliar religioso e escolas de educação cristã clássica. Para aumentar a confiabilidade das conclusões, os pesquisadores utilizaram um algoritmo estatístico capaz de separar a influência da escola de fatores familiares e socioeconômicos. Os resultados indicaram que os graduados de escolas de educação cristã clássica apresentaram vantagens significativas em diversos aspectos, entre eles:

  • Sucesso Acadêmico e Profissional: Maiores taxas de conclusão do ensino superior e satisfação profissional
  • Perspectiva Positiva de Vida: Maior satisfação pessoal e alcance de objetivos
  • Desenvolvimento de Liderança: Maior probabilidade de assumir funções de liderança em organizações
  • Pensamento Independente: Habilidades analíticas mais fortes e independência intelectual
  • Engajamento Comunitário: Maiores taxas de voluntariado e participação cívica

O crescimento desse modelo educacional tem sido significativo nos Estados Unidos. De acordo com dados compilados pela Heritage Foundation, aproximadamente um terço das 895 escolas clássicas atualmente existentes no país foi fundado ou adotou o modelo entre 2020 e 2024. 

noticia por : Gazeta do Povo

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