Numa entrevista para a revista WIRED, o elenco de A Odisseia parou no meio da conversa para acertar uma conta. Robert Pattinson quis saber a idade de Telêmaco. Tom Holland chutou dezesseis, até Matt Damon refazer o cálculo em voz alta: se o pai foi embora quando o filho tinha dois anos e voltou vinte anos depois, o rapaz já passou dos vinte. “Acho que percebi uma falha grave na minha atuação”, admitiu Holland, rindo. O vídeo correu o mundo e devolveu a Odisseia à conversa pública como novidade, quando por séculos ela foi o oposto disso, o livro que todos conheciam antes mesmo de abri-lo.
Houve um tempo em que ler a Odisseia não era uma escolha. Otto Maria Carpeaux lembra que os gregos usavam Homero na escola de um jeito que hoje soa estranho, não para refinar o gosto de alguns adolescentes, mas como quem decora um catecismo. Um verso de Homero podia encerrar uma discussão, e era com ele que um menino aprendia quem eram os deuses e como receber quem chegava de fora. Quem não dominava Homero ficava de fora da conversa pública. Aquilo não era literatura no sentido de hoje. Era a base comum de onde uma civilização inteira tirava seus argumentos.
Quem conhecia bem Homero podia aludir a ele e ser entendido na hora, e o que uma alusão resolvia naquele tempo hoje pediria uma nota de rodapé. Uma obra deixa de ser fundamento quando se pode passar pela escola e chegar à vida adulta sem nunca cruzar com ela. Foi o que aconteceu com a Odisseia, que saiu da base comum e virou uma leitura que dá para adiar sem que ninguém sinta falta. Vinte e cinco séculos depois, os atores que dão corpo a esses personagens precisam acertar no ar a idade de um deles, uma conta que antes ninguém precisava fazer.
Essa autoridade não parou na Grécia. Virgílio escreveu a Eneida para romanos que sabiam Homero de cor e moldou seu herói como uma resposta a Ulisses. Dante, treze séculos mais tarde, escolheu Virgílio para guiá-lo pelo Inferno e teve tanta intimidade com a herança que reservou ao próprio Ulisses um lugar entre os condenados, inventando para ele um naufrágio que Homero nunca contou. Nenhum dos dois tratava o grego como curiosidade de especialista; contavam com um leitor que já o trazia consigo. Cada geração não se contentava em ler o poema, tornava a escrevê-lo.
O gesto chegou intacto ao século XX. Em 1922, James Joyce refez a Odisseia dentro de um único dia em Dublin e deu o nome do herói grego a um caixeiro-viajante judeu, Leopold Bloom, que ao anoitecer volta para casa e para a mulher que o espera. Cada hora do dia de Bloom corresponde a um episódio da viagem antiga, do enterro pela manhã ao bordel de madrugada, e o poema de quase três mil anos aguenta a transposição sem se desfazer. No Brasil, quem verteu esse livro difícil para o português foi Antônio Houaiss, em 1966, num trabalho que os próprios contemporâneos chamavam de empreitada homérica.
A casa que espera
O apelo universal da Odisseia talvez se explique pela forma como a obra captura um anseio igualmente universal: o da volta para casa. O que Joyce foi buscar em Homero foi o retorno. A Odisseia é a história de uma volta que demora e de uma casa que espera: Penélope adia os pretendentes desfazendo à noite o que tece de dia, e o filho cresce perguntando por um pai que nunca viu.
Quando Ulisses enfim chega, chega disfarçado de mendigo, e o poema gasta seu último terço numa só questão, quem reconhece o rei debaixo dos trapos. O cão Argos, deitado no esterco, ergue a cabeça, fareja o dono depois de vinte anos e morre ali mesmo. Penélope, mais desconfiada, só se rende quando o mendigo revela o segredo da cama que ninguém além do marido conhecia. Aquele que volta precisa provar que é mesmo quem partiu.
Essa espera pelo que há de voltar reaparece muito além dos livros. O sebastianismo apostou séculos num rei desaparecido em Alcácer-Quibir, o Encoberto que voltaria numa manhã de nevoeiro para restaurar o reino perdido. Toda espera assim herda o problema de Penélope, o de reconhecer se quem chega é mesmo quem partiu. A esperança no retorno é mais antiga e mais ampla que Homero, mas foi a Odisseia que lhe deu a forma que reconhecemos, a do ausente aguardado enquanto os pretendentes ocupam a casa.
Quem volta de Ítaca
Christopher Nolan conhece bem a Odisseia. Quis levar para o filme uma das cenas mais lembradas do poema, aquela em que Ulisses se apresenta ao ciclope como Ninguém, para que o gigante cegado grite aos vizinhos que Ninguém o feriu e ninguém venha socorrê-lo. A piada não atravessa do grego para o inglês, e ele desistiu. “Tentei, não deu”, resumiu.
Na mesma temporada, Pedro Pacífico, o Bookster, um dos maiores divulgadores de leitura do país, com mais de um milhão de seguidores e um quadro sobre livros na CNN, contou que só depois de ver o filme teve “vontade de finalmente encarar o original”. Nenhum dos dois é indiferente à literatura, e é por isso que a cena importa, porque a distância já alcança quem faz do livro um ofício.
Um crítico literário anunciando que vai ler a Odisseia pela primeira vez depois dos trinta mede a distância que se abriu entre a obra e a formação que um dia a cercava. E mede também o contrário, porque foi o filme que o mandou de volta à fonte, o mesmo que a escola grega fazia com seus alunos e Virgílio fizera com Dante. A transmissão que parecia rompida se refez pela via menos provável, a bilheteria. Fica a pergunta que a própria Odisseia já deixara em aberto ao trazer Ulisses para casa disfarçado: o que volta a Ítaca depois de vinte anos e de uma superprodução, o rei que partiu ou alguém só parecido o bastante com ele para ser recebido de novo dentro de casa.
noticia por : Gazeta do Povo






