André Mendonça costuma descrever seu início de carreira no Direito citando o refrão de um conhecido hino gospel. “Eu só tinha um terno e um sapato furado”, diz Mendonça, hoje no centro de decisões que podem mudar os rumos do Brasil.
Há um certo exagero na frase dele. Mas a verdade é que, antes de virar o ministro “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro ao STF, o magistrado percorreu um longo caminho entre escritórios modestos e concursos públicos — numa trajetória construída bem longe dos olhos do grande público.
Mendonça não herdou uma clientela, tampouco tinha recursos para abrir a própria firma de advocacia. Recém-formado, ele começou trabalhando num escritório montado num porão, em Bauru, no interior de São Paulo, ainda nos primeiros anos da década de 90.
Esse percurso pouco conhecido também inclui uma infância passada em diferentes cidades, a vocação religiosa, o destaque pelo perfil técnico e, mais recentemente, questionamentos sobre sua atuação dentro e fora do Supremo.
É a história de como um homem discreto virou um dos nomes mais influentes do Judiciário brasileiro — e o único ministro disposto a enfrentar diretamente Alexandre de Moraes, cada vez mais implicado no caso Master.
“Queria ir para o seminário”
Filho do bancário Luiz Antonio e da dona de casa Maria Rosa, André Mendonça, hoje com 53 anos, nasceu em Santos e viveu em diferentes cidades paulistas por causa das transferências do pai, funcionário do extinto Banespa.
Ele passou por São Vicente, Miracatu, Itanhaém, Pederneiras e São Paulo antes de chegar a Bauru. E, embora seja de Santos, Mendonça também se considera “filho de Miracatu”, cidade de suas raízes familiares, para onde ainda volta nas férias.
O pai era presbiteriano e a mãe, católica. Os dois criaram quatro filhos em uma família marcada pela fé, e foi nesse ambiente que Mendonça começou a pensar em ser pastor.
Aos 16 anos, ele já tinha decidido seguir esse caminho. “Eu não queria nem fazer a faculdade de direito, queria ir para o seminário”, costuma contar em palestras e pregações.
Luiz Antonio, no entanto, pediu que ele concluísse os estudos primeiro. André Mendonça acabou cedendo e se formou pela Instituição Toledo de Ensino, em Bauru, em 1993. Ainda durante o curso, aos 19 anos, ele perdeu o pai, seu “orgulho, exemplo e referencial de vida”.
Após a faculdade, Mendonça tentou novamente seguir o caminho religioso. Mas, dessa vez, foi a mãe que o convenceu a adiar seu plano: ele precisava conquistar a independência financeira antes.
O futuro ministro do STF então começou a trabalhar na advocacia, prestou concurso para a Petrobras e depois para a Advocacia-Geral da União. Ao ser aprovado na AGU, pediu para ser lotado em Londrina (PR).
O motivo? Ali ficava a Faculdade Teológica Sul Americana, onde ele poderia se dedicar aos estudos religiosos enquanto continuava a carreira no serviço público.
A profecia
Um episódio ocorrido em Londrina ajuda a entender como André Mendonça enxerga a própria trajetória. A história, contada por ele em visitas a igrejas evangélicas, circula em vídeo nas redes sociais como uma “profecia” sobre sua chegada ao poder.
Segundo o relato, o ministro ainda morava no Paraná quando um pregador, sem conhecê-lo, afirmou que ele um dia ocuparia uma posição importante no país. “Leis serão mudadas por sua causa”, disse o religioso.
A suposta profecia é associada por parte do público evangélico ao peso das decisões de Mendonça no STF. Para esse grupo, o combate à corrupção e os embates na Corte fazem parte de um plano maior, conduzido por Deus.
Hoje, o ministro é pastor da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, onde prega e participa das atividades da congregação. No mês passado, por exemplo, ele falou para cerca de 150 homens sobre “princípios de um líder íntegro”, antes de voltar a Brasília para cumprir a agenda no Supremo.
Nas graças de Toffoli
André Mendonça era procurador da AGU em Londrina quando foi convidado, em 2005, para uma missão de dois meses na Corregedoria-Geral do órgão, na capital federal. Mas o trabalho teve um resultado melhor do que o previsto e, no ano seguinte, ele se mudou para Brasília com a mulher, Janey, e os dois filhos, Daniela e Luiz Antonio (mesmo nome de seu pai).
Efetivado como subcorregedor, Mendonça passou a lidar com processos disciplinares e se destacou pelo perfil técnico. Foi nesse período que seu nome chegou a Dias Toffoli, então advogado-geral da União.
Em 2008, Toffoli convidou Mendonça para dirigir o recém-criado Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa. A escolha tinha uma razão prática: o chefe da AGU via no procurador uma figura capaz de organizar uma área que precisava melhorar seus resultados na recuperação de dinheiro desviado dos cofres públicos.
À frente do departamento, Mendonça ganhou projeção ao comandar a restituição de R$ 169 milhões desviados das obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. O trabalho rendeu a ele, em 2011, o Prêmio Innovare, considerado o “Oscar da Justiça brasileira”.
O reconhecimento ajudou a consolidar a reputação do futuro ministro dentro da AGU e abriu caminho para novas funções de liderança. E assim o procurador que havia chegado a Brasília para um serviço temporário começava a ganhar espaço nos altos escalões do governo federal.
Bolsonaro e “Mendonção”
Jair Bolsonaro e André Mendonça não se conheciam até o fim de 2018. A aproximação se iniciou durante a transição de governo, quando Jorge Oliveira, então assessor de Bolsonaro, apresentou o currículo do procurador ao presidente eleito.
O perfil acadêmico de Mendonça chamava a atenção: além de formado em Direito e Teologia, ele tinha especialização em Direito Público e estava concluindo um doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, com uma pesquisa voltada ao combate à corrupção e à recuperação de ativos.
Em novembro daquele ano, Bolsonaro chamou o procurador para uma reunião que durou pouco mais de meia hora. Dias depois, o presidente anunciou nas redes sociais o nome de Mendonça para chefiar a AGU — e o apelidou, no próprio post, de “Mendonção”.
“Menino da Vila”
A relação com Jair Bolsonaro se estreitou nos anos seguintes. Na Advocacia-Geral da União, Mendonça foi fundamental na defesa jurídica do governo e ganhou a confiança do presidente e de sua família.
O público pôde ver essa proximidade quando o ministro acompanhou Bolsonaro em dois jogos do Santos na Vila Belmiro, em 2019 e 2020. Mendonça, aliás, é santista roxo: mantém a carteira de sócio ativa mesmo morando em Brasília e, quando pode, acompanha o time em outros estados.
Também em 2020, ele foi escolhido para substituir Sergio Moro no Ministério da Justiça, cargo que ocupou até março de 2021. Depois, voltou à AGU, onde permaneceu até agosto daquele ano.
Cinco meses de espera
Em julho de 2021, Bolsonaro indicou André Mendonça para a vaga de Marco Aurélio Mello no STF — cumprindo o compromisso de campanha de levar à Corte um representante do meio evangélico. Mas a decisão do presidente enfrentou resistência no Senado, e Mendonça ficou quase cinco meses à espera da sabatina.
Quando finalmente foi ouvido pela Comissão de Constituição e Justiça, em 1º de dezembro, ele passou mais de oito horas respondendo às perguntas dos senadores. Defendeu o Estado laico e afirmou que sua fé não iria interferir no exercício da função. No mesmo dia, teve o nome aprovado por 18 votos a 9 na CCJ e por 47 a 32 no plenário.
André Mendonça tomou posse em dezembro de 2021. Desde então, ficou conhecido por sua participação em julgamentos envolvendo liberdade de expressão, direitos individuais e os limites de atuação do próprio Supremo (incluindo os primeiros embates com Alexandre de Moraes).
Terno de luxo
Mas a trajetória de Mendonça também é marcada por algumas controvérsias.
Uma delas envolve o Instituto Iter, criado por ele em 2023 para oferecer cursos e pesquisas na área de Estado de Direito e governança. Administrada pela mulher do ministro, a organização fechou dezenas de contratos com órgãos públicos sem licitação — num total de R$ 10,7 milhões, de acordo com um levantamento do jornal Folha de S.Paulo.
No início deste mês, em meio aos questionamentos sobre a atuação do Iter, Mendonça e Janey deixaram a entidade e doaram suas cotas. Segundo o ministro, a decisão buscava evitar “ruídos”.
O Iter também aparece no rolo do Banco Master. Em março de 2025, Daniel Vorcaro esteve na sede do instituto, em São Paulo, para uma reunião com André Mendonça.
Meses depois, mensagens encontradas no celular de um advogado mostraram uma foto dos dois em uma alfaiataria de luxo. Vorcaro disse que levou o ministro para fazer um terno. Em resposta, o gabinete de Mendonça divulgou notas fiscais de R$ 26,4 mil, emitidas em nome de Janey, para mostrar que as roupas foram pagas pela família.
Outro episódio traz à tona a relação com Nelson Wilians, seu colega de faculdade em Bauru e dono de um dos maiores escritórios de advocacia empresarial da América Latina. Em junho de 2026, como relator de uma investigação sobre fraudes contra aposentados do INSS, o ministro autorizou Wilians a voltar a usar um helicóptero que havia sido apreendido pela Polícia Federal.
Quinze dias depois, o advogado foi alvo da Operação Distrato, que investigava a venda de créditos tributários falsos para reduzir ilegalmente o ICMS. Mendonça, porém, manteve a proibição de venda ou transferência do helicóptero.
O contraponto
As polêmicas não impediram André Mendonça de se tornar um dos protagonistas do STF. Principalmente a partir de junho de 2024, quando o ministro assumiu uma cadeira efetiva no Tribunal Superior Eleitoral, justamente no lugar de Alexandre Moraes. Desde então, os dois começaram a se enfrentar com frequência.
Mas o estouro do escândalo do Banco Master, com Moraes finalmente encurralado, mudou todo o jogo. E agora o advogado terrivelmente evangélico formado em Bauru é o único ministro com condições reais de desafiar o adversário e vencer.
noticia por : Gazeta do Povo











