Essa decisão responde a uma constatação preocupante. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu são destruídos antes mesmo de terem sido utilizados. A cada ano, isso representa entre 264 mil e quase 600 mil toneladas de roupas, calçados e acessórios novos. Para Bruxelas, esse desperdício já não é compatível com seus objetivos climáticos nem com sua intenção de desenvolver uma economia circular.
A destruição de produtos de luxo não vendidos é uma prática conhecida há muitos anos. Em 2018, a marca britânica Burberry causou escândalo ao admitir ter queimado mercadorias no valor de € 31 milhões em um ano para preservar sua imagem de exclusividade. Em 2021, a marca americana Coach também foi fortemente criticada após a divulgação de vídeos que mostravam bolsas não vendidas sendo deliberadamente cortadas antes do descarte. Diante da repercussão, a Coach anunciou o fim dessa prática e o desenvolvimento de programas de reparo e revenda.
Por que essa regulamentação é um quebra-cabeça para as marcas de luxo
Embora essa nova regra europeia pareça relativamente simples no papel, sua aplicação é muito mais delicada para os atores do mercado de luxo. Isso porque, nesse setor, não se vendem apenas roupas, bolsas ou pares de sapatos. Vende-se, acima de tudo, a imagem de objetos exclusivos, cuja raridade faz parte integrante do processo de criação de valor financeiro, mas também simbólico.
Assim, durante muito tempo, a destruição de parte dos produtos não vendidos foi uma maneira de preservar essa raridade e evitar que os artigos fossem colocados em promoção em grande escala. Para uma grande maison de alta-costura ou de artigos de couro, multiplicar descontos pode prejudicar a imagem da marca e reduzir o valor percebido de suas criações. É justamente por esse motivo que grandes grupos como LVMH, Chanel e Prada recebem essa regulamentação com cautela, ou até com certo ceticismo. Elas temem, em particular, ter de escoar uma quantidade maior de mercadorias em mercados secundários, correndo o risco de banalizar seus produtos e enfraquecer sua imagem de exclusividade.
Como as grandes marcas terão de se adaptar
Diante dessa nova regulamentação, as maisons de luxo terão de rever sua estratégia de gestão de estoques. Uma primeira solução consiste em conservar os produtos não vendidos por mais tempo, mas isso implica custos adicionais de armazenamento, logística, seguro e manuseio.
noticia por : UOL









