Mesmo diante do caos e da falta de informações, não demorou para israelenses compreenderem que o trauma provocado pelos atentados do grupo terrorista Hamas no dia 7 de outubro de 2023 se estenderia muito além das várias horas de barbaridade daquele dia, que marcou o pior ataque da história de Israel.
Naquela manhã, milhares de homens armados do Hamas e de outras facções palestinas cruzaram da Faixa de Gaza e atacaram locais até 22 km distantes da fronteira. O grupo terrorista lançou cerca de 5.000 foguetes, e seu comandante militar, Mohammad Deif, convocou palestinos de todo o mundo a lutar. “Este é o dia da maior batalha para acabar com a última ocupação na Terra”, afirmou.
Foram 1.200 mortos, entre civis e funcionários de segurança, israelenses e estrangeiros, que estavam naquele dia em suas casas em kibutzim próximos à fronteira, que trafegavam por estradas da região ou participavam de eventos como o festival de música eletrônica Nova, próximo ao kibutz de Re’im, local que registrou o maior número de assassinados, 351. Entre eles estava o brasileiro Ranani Glazer.
Desse e de outros locais alvo do Hamas também não demoraram a surgir os relatos de atrocidades cometidas pelos agressores, muitas delas descritas em relatórios como o divulgado pelas Nações Unidas, em junho de 2024, e o de uma comissão israelense que investigou o uso de violência sexual na ofensiva e durante o período em que 251 reféns levados pelo grupo terrorista para Gaza estiveram sequestrados.
Foram registrados casos de tortura, vilipêndio de cadáver, estupros e abusos contra mulheres de maneira sistemática, entre outras violências.
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No relatório da comissão israelense, que se baseia em depoimentos de sobreviventes, testemunhas, entrevistas, material audiovisual e processos judiciais, os autores afirmam que os crimes “foram caracterizados por uma crueldade extrema e um profundo sofrimento humano, muitas vezes infligidos com o objetivo de intensificar o terror e a humilhação”.
Em locais como o kibutz Nir Oz e a área em que ocorria o festival Nova em Re’im, visitados pela Folha quase dois anos após os ataques, as marcas do terrorismo —casas queimadas, buracos de tiros nas paredes, e elementos de vidas congeladas no tempo pela violência— foram preservadas ao lado de cartazes com fotos dos mortos e, à epoca, dos que ainda estavam sob poder do Hamas.
Segundo a Eran, ONG israelense que trabalha com assistência emergencial de saúde mental, desde o ataque foram realizados 928 mil atendimentos —Israel tem cerca de 10 milhões de habitantes. O percentual de jovens auxiliados, segundo a organização, quase dobrou desde o 7 de Outubro, de 2,6% a 4,4%; os dados completos e desagregados não estão disponíveis.
A sociedade israelense revive o trauma diariamente, três anos após a ofensiva, também sob os efeitos políticos do ataque. Duramente criticado pela demora na reação inicial ao ataque, o premiê Binyamin Netanyahu inicialmente culpou chefes militares e de inteligência, mas depois recuou.
Divergências com líderes militares continuaram ao longo dos três anos de conflito, em especial quanto à condução da reação subsequente em Gaza. O premiê também foi alvo preferencial de familiares de reféns pela demora em recuperar os sequestrados, libertados após dois anos de guerra.
A memória das vítimas se soma à critica à reação do governo Netanyahu e à guerra apenas suspensa em meio a uma trégua pouco respeitada para que o 7 de Outubro seja visto como central para 62% dos israelenses em sua decisão de voto na eleição do dia 27 de outubro, segundo pesquisa do Instituto Democracia de Israel (IDI).
No início de setembro, reportagem do jornal Haaretz adicionou tensão à disputa. Segundo investigação do jornal, o premiê teria sido alertado sobre o ataque quase dez dias antes da ofensiva pelo xeque dos Emirados Árabes Unidos. Netanyahu nega.
Muito pressionado por opositores e familiares de vítimas, Netanyahu soube, contudo, posicionar-se como homem forte diante das ameaças de segurança enfrentadas por Israel. Em pesquisas recentes, a menos de um mês antes do pleito, o bloco de apoio do premiê está virtualmente empatado com o principal grupo de oposição. Ainda que deva perder cadeiras no Knesset, o Parlamento do país, o primeiro-ministro ainda pode permanecer no poder a depender de negociações com outras legendas.
noticia por : UOL
