A Copa do Mundo de Futebol de 2026 é a maior edição desde a primeira, em 1930. São três países anfitriões, mais seleções nacionais participarão, mais partidas serão disputadas; haverá mais publicidade, mais patrocínio, mais dinheiro. E os ingressos estão sendo vendidos mais caros do que nunca. Será um grande negócio: para a FIFA, com certeza; para as sedes, nem tanto.
A 23ª Copa do Mundo da FIFA, que será disputada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá, é a segunda a ser realizada em mais de um país, depois da Coreia do Sul e do Japão, em 2002. Só perde para esta última no número de sedes e estádios: 16, contra 20 naquela ocasião.
Mas a principal novidade é que as equipes participantes passam de 32 para 48 e, portanto, o número de partidas aumenta para 104: 40 a mais. Teremos 39 dias de futebol – incluindo 5 de descanso –, também mais do que nunca.
Outro recorde desta Copa é o preço dos ingressos. Os das partidas da fase de grupos custam, em média, US$ 200, quase o triplo da edição anterior (Catar, 2022), e os da final estão perto do quádruplo: US$ 2.030. Isso se deve a uma inovação da FIFA para o torneio de 2026.
Antes, a FIFA fixava preços moderados e, quando a demanda superava a oferta, sorteava os assentos. Desta vez, ela assumiu o controle das bilheterias, em vez de confiá-lo aos organizadores locais, e adotou o sistema de preços dinâmicos, que sobem ou descem em função da demanda. Além disso, estabeleceu um mercado de revenda próprio, no qual cobra uma comissão de 15% tanto do vendedor quanto do comprador. Na revenda, os ingressos para a final estão (na data de 11 de junho) entre US$ 9.000 e US$ 2.300.000.
É um banho de ouro para a FIFA, que fica com o dinheiro: cerca de US$ 3 bilhões, se as suas previsões se cumprirem. Talvez o presidente da organização, Gianni Infantino, no final das contas, tenha que levar a sério a piada com que respondeu às críticas por esses preços astronômicos: “Se alguém comprar um ingresso para a final por US$ 2 milhões, eu mesmo, em pessoa, levarei um cachorro-quente e uma Coca-Cola para ele”.
Não haverá “elefantes brancos”
No entanto, o custo de organização da Copa, que vinha subindo de algumas centenas de milhões de dólares nos anos 90 para os US$ 220 bilhões no Catar 2022, será relativamente moderado: US$ 14 bilhões, menos do que o da Brasil 2014 e o da Rússia 2018. A razão principal é que a maior parte da infraestrutura já estava de pé. A FIFA exige pelo menos um estádio de 80.000 assentos para a final, um de 60.000 para a partida de abertura e outros seis de 40.000. Os países anfitriões desta Copa já os tinham, entre os três, de modo que não precisaram construir nenhum estádio novo. Os 16 que serão usados são rentáveis e ficam cheios durante toda a temporada, sem a necessidade de uma Copa do Mundo.
Não haverá, portanto, “elefantes brancos”: grandes e custosos estádios que, terminado o torneio, ficam subutilizados. Um caso emblemático é o da final da Copa do Catar, o Estádio Icônico de Lusail, com capacidade para quase 90.000 espectadores, que custou US$ 2,105 bilhões. Depois, ele abrigou partidas de algumas competições internacionais, mas no Catar não há, nem de longe, torcedores suficientes para lotá-lo ao longo de um ano normal. Isso já se sabia, e o previsto era reduzir a capacidade para 40.000 e reformar o espaço restante para outros usos. Por enquanto, no entanto, o Icônico continua igual.
Menos pão do que circo
Mas, embora para a Copa de 2026 não tenham sido necessárias grandes obras públicas, também neste caso a maior parte do custo fica a cargo dos países. A FIFA gastará US$ 3,750 bilhões dos US$ 14 bilhões totais, mas sustenta que o torneio renderá US$ 30,5 bilhões para os três anfitriões, por meio de visitantes, empregos diretos e indiretos, boa imagem e investimentos.
No entanto, como alertou em sua época o economista do esporte norte-americano Andrew Zimbalist, megaeventos como os Jogos Olímpicos e as Copas do Mundo de Futebol dão aos países organizadores muito circo e pouco pão. A onda de torcedores não equivale a um aumento líquido de chegadas, porque afugenta os turistas comuns. Inclusive, Londres recebeu menos visitantes em 2012, o ano em que organizou sua terceira Olimpíada.
De fato, segundo uma pesquisa da American Hotel and Lodging Association com mais de 200 hotéis das onze cidades americanas que serão sedes da Copa deste ano, em quase 80% deles, as reservas para os dias do torneio estavam abaixo das previsões.
A experiência ensina, e confirmam estudos sobre a Copa deste ano realizados pela Oxford Economics e pelo Saxo Bank, que o aumento da atividade econômica e a criação de empregos são temporários e limitados a alguns setores: principalmente lazer e hotelaria; de modo que o impacto econômico total é bastante modesto. Ao mesmo tempo, o torneio representa um pico de gasto público em segurança, pois a FIFA só a custeia nas dependências dos estádios, ficando a área externa sob a responsabilidade dos municípios. O Congresso dos Estados Unidos aprovou uma verba de US$ 625 milhões para as onze cidades do país onde haverá jogos.
As contas da FIFA
As promessas de lucros para os países anfitriões feitas pela FIFA costumam ser exageradas e sem fundamento, enquanto as contas dela mesma são muito mais concretas. Nesta Copa, a entidade planeja arrecadar US$ 8,728 bilhões: US$ 3,925 bilhões por direitos de transmissão, US$ 1,786 bilhão por marketing (publicidade, patrocínio, merchandising) e US$ 3,017 bilhões por ingressos.
As previsões respondem à política de Gianni Infantino, presidente da FIFA desde 2016. Com ele, o orçamento da organização seguiu uma linha expansiva. O correspondente ao seu atual mandato, 2023-2026, é de US$ 13 bilhões, 72% a mais que o do quadriênio anterior. O de 2026 (8,911 bilhões) multiplica por 3,6 o de 2025, graças à Copa do Mundo.
Trata-se de obter mais dinheiro para dedicá-lo à promoção do futebol, diz a FIFA. Com efeito, desde que Infantino é presidente, a FIFA distribuiu mais de US$ 5 bilhões entre as 218 federações nacionais que a integram. Todos ficam felizes, e Infantino foi reeleito duas vezes. Seu antecessor, Sepp Blatter, afastado da gestão do futebol por um caso de corrupção, e Hans-Joachim Eckert, ex-presidente do órgão de decisão do Comitê de Ética da FIFA, sustentam que, dessa maneira, Infantino garante o apoio das federações, que – sejam grandes ou pequenas – têm um voto cada uma na eleição do presidente. As mais agradecidas são as de países de baixa renda, que também são a maioria. Um porta-voz da FIFA rebate dizendo que esses comentários são “pura ficção”.
Mais jogos, mais espetáculo, mais dólares. Nas palavras de Infantino a um fórum de investidores, a bola é “um instrumento mágico que faz as pessoas felizes”, então colocar dinheiro no futebol é “investir em felicidade”. Para a FIFA, isso sai muito rentável.
©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: El Mundial de fútbol, fábrica de felicidad para la gente, y de dinero para la FIFA.
noticia por : Gazeta do Povo








