Desaceleração pode tornar governo Lula mais dependente de receitas extraordinárias em 2026; assista à C-Level Call

A desaceleração da economia observada na divulgação do PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre de 2025 tem impacto fiscal e pode tornar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mais dependente de receitas extraordinárias para fechar as contas de 2026. A avaliação é da repórter especial da Folha Idiana Tomazelli.

“Quando a economia desacelera você arrecada menos tributos. As empresas estão com uma atividade mais lenta, então elas pagam menos. Isso pode ter um reflexo negativo nas receitas administradas, aquelas mais firmes que o governo tem para fechar as contas”, afirmou durante o C-Level Call desta semana, transmitido nesta quinta-feira (4).

O cenário, segundo a jornalista, faz com que seja ainda mais importante para a equipe econômica liderada pelo ministro Fernando Haddad aprovar medidas no Congresso Nacional.

Ela citou, por exemplo, o projeto de revisão de gastos tributários e a proposta que aumenta a tributação sobre fintechs e casas de apostas online, as bets. Essa última teve aval da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado na terça (2), mas ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados.

“Vai ser muito importante acompanhar esses desdobramentos nos próximos dias para ver como isso vai se comportar e como que o governo vai conseguir fechar as contas para o ano que vem”, disse Idiana Tomazelli.

SELIC DEVE CONTINUAR EM 15% E ANO ELEITORAL PRESSIONA

A repórter da Folha Nathalia Garcia afirmou que o Banco Central também observa o impacto desses projetos econômicos que tramitam no Legislativo.

Na última ata do Copom, o comitê disse já ter incorporado em suas projeções uma estimativa preliminar do impacto da ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. A jornalista disse, no entanto, que “isso vai ganhar corpo com o passar dos meses”.

O colegiado se reúne na próxima semana, em 9 e 10 de dezembro, para decidir pela última vez em 2025 a taxa básica de juros, a Selic. O patamar está atualmente em 15%. A expectativa de manutenção é unânime, segundo Nathalia Garcia.

A repórter avaliou que a discussão em relação à queda dos juros em 2026 tem deixado o mercado financeiro dividido. Parte projeta que a redução será na primeira reunião do ano, em janeiro, sob o argumento de alto patamar dos juros reais e do resultado do PIB, enquanto outros acreditam que ficará para março porque, segundo eles, as expectativas estão longe da meta de inflação de 3%.

“O Copom tem como objetivo desacelerar a economia, frear a demanda para conter a inflação. Hoje, o Banco Central está olhando para o segundo trimestre de 2027. E a própria projeção do Copom é que a inflação vai ser de 3,3%. Ainda acima dos 3%”, disse.

Idiana Tomazelli acrescentou que “chegar com esse juro muito alto na eleição vai ser um grande teste” para o presidente do BC, Gabriel Galípolo. O economista atuou como secretário-executivo do Ministério da Fazenda e foi indicado ao atual cargo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputará a reeleição em 2026.

A repórter especial da Folha lembrou que o governo federal adotou medidas que aumentam a demanda por crédito e por consumo, como o consignado privado e o novo modelo de crédito habitacional. As iniciativas podem dificultar o trabalho do Banco Central de controlar a inflação.

“As pressões já se intensificaram nos últimos meses, principalmente depois da reunião de novembro. A gente viu membros do governo bastante vocais pleiteando a redução da taxa de juros, até porque isso encarece o crédito, traz impacto para empresas, para os consumidores. E isso acaba trazendo um desconforto da população com relação à economia”, afirmou Nathalia Garcia.

SOCORRO AOS CORREIOS: XADREZ POLÍTICO E TEMOR DO TESOURO

Outro tema caro ao governo Lula é a reestruturação dos Correios. O Tesouro Nacional negou a concessão de garantia soberana ao empréstimo de R$ 20 bilhões que a estatal pretendia tomar com bancos, o que levou à suspensão da operação.

Idiana Tomazelli avaliou que há uma preocupação dos técnicos do Tesouro de que o TCU (Tribunal de Contas da União) conclua que as condições da garantia não foram favoráveis e que eles sejam responsabilizados por isso.

Além disso, apesar da percepção dentro do governo de que as condições do empréstimo não foram favoráveis, com uma elevada taxa de juros, a jornalista apurou que integrantes da equipe econômica reconhecem que há também “um componente de estratégia de jogo”.

“Colocar ali uma pressão nos bancos. ‘Está suspenso, então vocês vão ter que se movimentar’. Tem um xadrez sendo jogado”, afirmou.

Segundo a jornalista, existem três opções para a estatal. A privatização, defendida por especialistas, é descartada pelo governo. No cardápio estão:

  • Aporte da União: poderiam ser injetados recursos na empresa. Os Correios precisam de R$ 20 bilhões de reais. A operação teria impacto nas regras fiscais, e o governo tem pouco espaço no Orçamento;
  • Empréstimo com bancos: trata-se da principal opção, segundo a jornalista, e é o que estava sendo negociado até a supensão. Nesse caso, o Tesouro entra como fiador e paga as prestações caso os Correios deem algum tipo de calote;
  • Mudança para empresa dependente do Tesouro: a estatal iria para dentro do Orçamento. A repórter avaliou que a medida criaria uma série de impasses para o governo por causa da necessidade de cortar de outras áreas. “É a situação mais hipotética”, afirmou.

“Os Correios sempre tiveram a preferência pelo aporte. O empréstimo gera toda uma conta de juros que eles vão ter que pagar, reestruturar a operação e colocar isso na conta. Todas as receitas que eles forem conseguindo com novos clientes, vão precisar direcionar uma parte disso para os bancos”, declarou.

noticia por : UOL

Facebook
Twitter
WhatsApp
Email