Em 2017, Yuri Gricheno, 34, e Carol Matsuse, 34, investiram R$ 50 mil cada um para fundar a Insider, marca hoje conhecida por suas camisetas básicas de pegada tecnológica e sua onipresença como patrocinadora de podcasts e outros formatos de conteúdo no YouTube. Oito anos depois, eles se preparam para chegar à marca de R$ 600 milhões de faturamento. Isso sem investidor. O casal ainda controla 100% do negócio.
“A gente conta com o próprio caixa, com as próprias finanças da Insider, para escalar e crescer”, diz Gricheno. É o “bootstrapping”, como se diz no linguajar startupeiro.
“É uma estratégia dos empreendedores mais conservadores, que preferem crescer menos rápido, mas manter o controle do negócio. Em geral, eles pretendem ficar com a empresa em um horizonte de tempo maior, não querem crescer rapidamente e fazer o exit [vender sua parte ao investidor e sair]”, diz Tales Andreassi, professor de empreendedorismo e vice-diretor da FGV-Eaesp (Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas).
Gricheno conta que, quando a empresa foi fundada, a atratividade para fundos e outras modalidades de investimento era baixa: eles eram apenas uma fabricante de “undershirts” (peça que serve como segunda pele para ser usada embaixo da camisa). E o mercado estava mais interessado, por exemplo, em investir em startups criadoras de SaaS (Software as a Service, o uso de softwares que não dependem da instalação física de um programa ou da compra de uma licença).
Era uma aposta de risco. Aqueles R$ 100 mil eram basicamente tudo o que os sócios tinham, e, se a empresa desse errado, o máximo que eles poderiam contar era com a venda do estoque. “A lógica era, no pior dos casos, vender os produtos a preço de custo, ou próximo disso, para não perder tanto dinheiro assim”, afirma.
Não foi preciso. Nos anos seguintes, a empresa lançou máscaras antibacterianas que ajudaram a empresa a sobreviver à pandemia da Covid-19 e colocou no mercado a sua “tech t-shirt”, uma camiseta com fios de celulose da madeira anunciada como antiodor e que desamassa no corpo.
Gricheno diz que a estratégia foi olhar para a camiseta não como um produto de entrada, uma commodity, mas sim como um objeto de desejo, próximo inclusive da camisa social.
Sem muito apelo visual ou estampas diferentes, o produto pode atender a um público muito ocupado ou que não se importa de parecer vestir sempre a mesma roupa (Steve Jobs, lendário criador da Apple, era adepto, e Mark Zuckerberg, da Meta, também).
“A gente acredita muito no minimalismo, de ter poucos itens, mas com altíssima qualidade”, diz Gricheno. Hoje, a camiseta tecnológica é vendida a partir de R$ 129 —a Hering anuncia suas camisetas básicas por ao menos R$ 79,90 no ecommerce.
A outra estratégia foi o marketing. A Insider acabou invadindo o YouTube brasileiro com sua marca em vídeos de influenciadores das mais variadas posições políticas ou nichos de público.
O fisiculturista Rodrigo Góes costuma estar vestido com a camiseta da empresa para decidir se o musculoso em análise toma “o suco” (usa anabolizantes ou não). Isabela Boscov faz malabarismos no roteiro para inserir a marca em suas críticas de filmes e séries. Igor Coelho entrevista políticos e personalidades no Flow usando peças da empresa.
Ana Julia Buttner, professora do curso de publicidade e propaganda da ESPM, afirma que usar influenciadores com diferentes volumes de seguidores e conteúdo é uma forma de aumentar a confiança. “Quando você vê um influenciador grande falando, nem sempre vai confiar. Mas, quando vê um menor, que está mais perto de você, com uma rotina mais próxima da sua, acaba se identificando mais. É como se fosse alguém do seu círculo social”, diz.
Segundo o CEO da empresa, não há predileção por espectros políticos ou de comportamento. “A Insider não está no lugar de defender um determinado discurso. A gente está aí para defender que as pessoas se mantenham cada vez mais informadas, independentemente do tema”, diz.
Isso por vezes causa problemas. A Insider já era patrocinadora do Flow quando, em 2022, o então apresentador e sócio Monark (Bruno Aiub) defendeu a existência de um partido nazista. Na época, a parceria foi paralisada e retomada tempos depois.
Gricheno diz que agora, com uma equipe maior, a empresa faz diligências melhores sobre quem são os apresentadores, os convidados ou temas de um determinado podcast. A Insider emprega cerca de 200 pessoas.
A outra faceta controladora dos fundadores da Insider aparece nos canais de venda. Hoje, 95% dos produtos são comercializados pelo próprio site da empresa, que não tem varejo físico. É uma forma de tentar entender melhor o cliente diretamente, algo mais difícil de conseguir em marketplaces como a Amazon ou o Mercado Livre.
E se um investidor bater à porta agora? Ele não descarta abri-la. “Não é uma coisa que a gente seja filosoficamente contra”, diz o CEO.
Questionado sobre qual é a estratégia da empresa para continuar crescendo e, por exemplo, pular dos pouco mais de R$ 400 milhões de faturamento de 2024 para os R$ 600 milhões deste ano, ele não faz firulas: “Não é muito diferente do que a gente vem fazendo”.
Aposta em continuar ampliando o portfólio de produtos, que hoje já não está restrito às camisetas e inclui camisas, calças, moletons, saias e vestidos, entre outros. Mas sem muita pressa. “É impossível fazer dez coisas excepcionais ao mesmo tempo.”
noticia por : UOL






