As invasões bárbaras chegam ao Brasil nesta semana com a vinda da jornalista francesa de origem argelina Louisa Yousfi, autora do provocativo ensaio “Permanecer Bárbaro: Não Brancos Contra o Império”, em que eviscera as contradições da dita civilização ocidental.
A escritora de 37 anos é convidada da Flipei, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes. Ela fala no dia 9, às 19h, apresentando a tese de seu ensaio —um convite para que os vistos como subalternos adotem suas identidades bárbaras, recusando se integrar aos civilizados.
A Flipei, que acontece até domingo em São Paulo, nasceu como um contraponto à Flip, em Paraty. Ligada à militância de esquerda, é o palco ideal para alguém como Yousfi, que se consolidou com seu ensaio de 2022 como uma referência de rebeldia.
Yousfi participa do evento em um momento delicado. A Flipei tinha um contrato para ocupar a praça das Artes neste ano, mas a Fundação Theatro Municipal, ligada à prefeitura, voltou atrás a menos de uma semana do início do festival.
A fala de Yousfi agora acontecerá no Galpão Elza Soares, ainda no centro da cidade, e todo esse vaivém reverbera na sua obra. Antes de embarcar, ela disse à Folha se entusiasmar com a visita porque “há ressonâncias subterrâneas entre as histórias da Argélia e do Brasil”, vítimas da violência colonial.
Yousfi teve a ideia do ensaio a partir de um texto do escritor argelino Kateb Yacine. “Sinto que tenho tantas coisas a dizer que é melhor que não seja demasiado culto. Tenho que manter uma espécie de barbárie, tenho que permanecer bárbaro.”
A frase está inserida em um contexto específico que pode escapar aos leitores brasileiros. A França colonizou a Argélia de 1830 a 1962, em um processo feroz que deixou centenas de milhares de mortos. A guerra de independência argelina é uma das causas célebres da esquerda global.
Como resultado, milhões de argelinos e descendentes vivem na França, entre os quais a família de Yousfi. Foram forçados pela história a se integrar à cultura francesa. “Isso significou abandonar àquilo que nos era essencial: nossas tradições, religiões, línguas e culturas”, diz a escritora.
Quanto mais se “domesticou”, nas suas palavras, mais se sentiu incapaz de escrever. Tinha menos coisas a dizer. “Como alguém pode escrever depois de passar toda uma vida reprimindo sua autenticidade?”, pergunta.
Vem daí a sua pulsão por retomar sua “identidade bárbara”. O termo era um insulto proferido pela civilização ocidental contra aqueles que explorava, diz ela. “Adotá-lo é um ato deliberado de reversão do estima.”
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Yousfi rejeita inclusive, no texto, a ideia de que seja franco-argelina. O hífen engana ao fazer parecer com que França e Argélia estão em um pé de igualdade, diz. Apaga a violência da colonização e faz parecer que o problema hoje é só uma tensão cultural.
O ensaio tem um ritmo vertiginoso, quase com o de um vômito súbito, em que Yousfi transita entre teorias e referências sem se deter. É energizante, mas recebeu também críticas pela falta de um arcabouço teórico sólido —por exemplo, na definição de quem são os bárbaros.
Yousfi fala ao longo do texto de colonizados, escravizados e subjugados. Trata da barbárie como se fosse “um território selvagem dentro de nós”, um “terreno intocado que o império falhou em conquistar” e que precisa ser protegido “como alguém protege os seus tesouros mais sagrados”.
À reportagem Yousfi diz que adotou uma “estética da insolência”. Não quis que o ensaio usasse as tradicionais técnicas acadêmicas —notas de rodapé e referências bibliográficas— como instrumentos de autoridade. Em vez disso, usou-as como “armas escavadas no coração da cidade”.
São estratégias que aprendeu com pensadores latino-americanos, entre os quais cita o argentino Enrique Dussel, expoente da filosofia da libertação. Fala sobre a América Latina como o berço de sua formação intelectual decolonial. Daí seu entusiasmo com a passagem pelo Brasil.
“Para mim, é como voltar à fonte”, diz. “Não para ensinar, mas para escutar essa longa memória e para ver como as resistências populares —sejam aquelas nascidas nas favelas ou nos bairros ao norte de Marselha— podem falar umas com as outras e inventar novos caminhos juntas.”
noticia por : UOL






