Para o espírito torcedor do brasileiro, a COP30 pode ter se encerrado com a sensação de bola na trave. Mas o jogo das conferências globais de clima não é definido por um artilheiro salvador ou por um frango do goleiro. Num cenário geopolítico cada vez mais avesso a consensos, avançar a partir de agora no enfrentamento à crise climática começa por reconhecer as vitórias em Belém, para poder centrar forças nas estratégias contra as claras lacunas e omissões nos compromissos assinados pelos 195 países presentes.
A omissão mais dolorosa foi a dos mapas do caminho para a saída dos combustíveis fósseis e para o desmatamento zero, retirados do documento final da COP30 depois de terem sido mencionados nos rascunhos. A fala contundente do presidente Lula, tanto na Cúpula dos Líderes como na abertura da conferência, e sua presença na última semana de negociações, inflaram esperanças.
Quem acompanha as tratativas sobre clima sabia que se deveria esperar pelo possível. A eliminação gradual dos combustíveis fósseis sequer constava da agenda oficial em Belém; o mapa do desmatamento zero entrou no debate aos 45 minutos do segundo tempo, um esforço da ministra Marina Silva.
O fato de termos, ao final, 86 países comprometidos com o fim da dependência do petróleo e 90 alinhados em zerar o desmatamento é, portanto, um baita resultado. A decisão da presidência brasileira da COP de liderar o processo de construção desses mapas –que já tem na agenda a conferência internacional sobre a transição dos combustíveis fósseis, em abril de 2026, na Colômbia– cria uma rota alternativa para seguir até a COP31, na Turquia.
É interessante ver como esse movimento, apesar de fora da Convenção do Clima, aponta que apenas o multilateralismo pode mover os ponteiros –e provocar a sua própria reforma. Na segunda maior COP e a mais inclusiva dos últimos anos, o Acordo de Paris não implodiu. Reforçando o apelo dos cientistas, que se reuniram pela primeira vez em um pavilhão das ciências planetárias, o consenso dos países confirmou a Missão 1,5°C, transformada em uma plataforma para a cooperação internacional em adaptação e mitigação; outra plataforma pretende acelerar a implementação das NDCs (as contribuições nacionais para reduzir as emissões).
Nos documentos finais e na Agenda de Ação Climática, pela primeira vez integrada ao processo decisório formal, houve o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação (embora estendido até 2035) e de uma transição justa. A natureza ocupou um papel mais central, o que trouxe o enfrentamento ao crime ambiental para as discussões e deu destaque a soluções baseadas na natureza para o restauro de biomas. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF em inglês) enfim decolou, com aportes que já somam US$ 6,7 bilhões.
Esses compromissos, porém, são insuficientes diante da distância do objetivo de manter ao alcance o limite de 1,5°C para o aquecimento da Terra.
Em uma COP da Verdade, foi um necessário choque de realidade a convivência com uma cidade amazônica e suas dificuldades de saneamento básico, energia e transporte, suas chuvas e calor agravados pelas mudanças climáticas, a vulnerabilidade de suas populações ribeirinhas –e a demonstração diária de força e resistência de povos indígenas e quilombolas.
Que venham deles a inspiração para avançar mais e mais rapidamente, nessa próxima etapa da liderança brasileira, na construção de consensos e ações concretas rumo ao desmatamento zero e restauro até 2030, a saída dos combustíveis fósseis e a ampliação do financiamento para o clima e a natureza.
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noticia por : UOL






