As portas em madeira maciça do templo estão fechadas, como uma barreira que interrompe o vaivém dos turistas, guias e ambulantes. A construção do século 18 é apenas uma moldura nas fotos daqueles que se aglomeram nas calçadas de pedra do Largo do Cruzeiro, no Pelourinho, em Salvador.
Uma das joias da arquitetura barroca do Brasil, a Igreja de São Francisco viveu em fevereiro de 2025 uma de suas páginas mais trágicas com desabamento do forro da nave central, que deixou cinco feridos e resultou na morte da morte de Giulia Panchoni Righetto, turista de Ribeirão Preto (SP).
Um ano depois da queda do forro, a igreja mantida pela Ordem Franciscana segue interditada e sem projeto de reforma concluído. Nesta quarta-feira (4), o Iphan (Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) anunciou R$ 20 milhões do Novo PAC para iniciar o restauro da igreja.
O custo total para reforma do complexo, contudo, é estimado em R$ 86 milhões, sendo R$ 36 milhões apenas para igreja. A Comunidade Franciscana da Bahia, responsável pelo imóvel, vai fazer uma campanha de doações e mira uma estratégia inspirada na reforma da Catedral de Notre-Dame, na França.
“A reforma tem um custo alto, nós não temos condições de fazer. Vamos trabalhar para viabilizar parcerias e evitar danos maiores ao patrimônio. É um prédio histórico que demanda muita coisa para mantê-lo em pé”, afirma o frei Lorrane Clementino, um dos responsáveis pelo templo.
Ele afirma que planeja uma campanha de arrecadação com doações e eventos que serão realizados o longo do ano. Na França, a reconstrução da Catedral de Notre-Dame após um incêndio em 2019 custou R$ 4,5 bilhões e foi bancada com doações de empresários, inclusive brasileiros como Lily Safra.
Hermano Queiroz, superintendente do Iphan na Bahia, defende um movimento semelhante para restaurar a igreja baiana: “É necessário mostrar para a sociedade que a Igreja de São Francisco é um patrimônio do Brasil. As pessoas precisam entender que a nossa Notre-Dame está precisando de apoio da sociedade brasileira e dos empresários”.
A Igreja de São Francisco data de 1587, mas o seu prédio atual foi construído apenas no século 18. O seu interior é coberto por quase uma tonelada de ouro em pó reflete a opulência da Salvador daquele período. Ficaria conhecida como a “igreja do ouro”, sendo tombada como patrimônio histórico.
Desde o incidente em 2025, o Iphan realiza obras emergenciais de R$ 2,4 milhões no telhado e no forro, além de atuar na catalogação, tratamento e remontagem das peças que desabaram do teto da igreja.
O Iphan instruiu a licitação do projeto e aguarda a liberação de recursos para contratação. A ideia é atualizar um plano já existente de restauração da igreja feito pelo arquiteto Mário Mendonça, professor emérito da Universidade Federal da Bahia e referência na área de conservação do patrimônio.
Os desgastes na estrutura da igreja vinham sendo sinalizados desde 2016 pelo Ministério Público Federal. Em 2018, a Justiça Federal pediu uma perícia judicial que identificou riscos estruturais.
Antes do desabamento, o Iphan havia investido R$ 6 milhões em restauros no complexo e desenvolvia um projeto para uma reforma mais ampla, informou a ministra da Cultura, Margareth Menezes.
“Infelizmente, aconteceu aquela tragédia. Mas as obras da igreja tinham sido retomadas desde antes daquele incidente que chocou a todos nós”, disse a ministra à Folha.
Na semana passada, Margareth se reuniu com representantes do Iphan, do Ministério Público do Estado da Bahia e com os freis franciscanos para discutir formas de cooperação institucional para viabilizar a execução do projeto.
A interdição de parte do complexo representou um baque nas receitas para manutenção do complexo. A taxa de visitação da igreja, uma das mais procuradas pelos turistas, era usada na manutenção dos prédios históricos e nos projetos sociais desenvolvidos pelos frades franciscanos.
Até mesmo vendedores ambulantes que trabalham em frente à igreja sentiram a diferença: “O movimento ficou muito menor”, afirma o vendedor de coco Danilo de Jesus Costa, 67.
No convento anexo à igreja, áreas inteiras foram interditadas diante dos riscos. Os frades tocaram os dormitórios no primeiro andar por alojamentos no porão, local considerado mais seguro para abrigá-los.
Nesta quinta-feira (5), moradores, comerciantes e representantes de entidades sediadas no Pelourinho vão fazer uma manifestação para cobrar a recuperação da igreja, que faz parte do conjunto reconhecido há 40 anos pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.
Os frades franciscanos vão celebrar uma missa em memória de Giulia, vítima do desabamento, na Igreja da Ordem Terceira Secular de São Francisco, também no Pelourinho.
O inquérito que apura as responsabilidades sobre o desabamento do teto do imóvel ainda não foi concluído pela Polícia Federal.
noticia por : UOL






