O que Caetano ainda nos deve?

Caetano Veloso é um gênio da raça. Sua trajetória longa e sinuosa é cinematográfica, embora nenhum cineasta tenha ousado abordá-la para além de documentários.

Nesta quinta (7), o baiano de Santo Amaro completou 83 anos. Criador do movimento estético mais importante no Brasil do século 20, a Tropicália, Caetano segue ativo na vida artística. Na esfera pública o baiano se faz presente na mídia tradicional e também nas redes sociais, apesar de dizer que não tem celular. Ele é figura constante da sociedade brasileira desde que me dou por gente.

Sua aura de gênio foi-me apresentada logo cedo, quando aos 6 anos ouvi a canção “London, London”. Não era ainda nascido quando ele a lançou em 1971, em pleno exílio. Escutei-a em 1986, quando o grupo RPM a regravou com um bonito arranjo de piano.

Lembro-me de ficar muito tocado com “London, London”, achando que se tratava de um grupo estrangeiro. Minha mãe também gostava da versão e a ouvimos várias vezes no rádio da brasília branca da família. Era o auge do grupo de Paulo Ricardo, que dali a pouco se esfacelaria.

Espantei-me ainda mais ao saber que o compositor daquela música era um brasileiro. Nem sei se o nome de Caetano Veloso foi mencionado, acho que não. Na minha ingenuidade infantil, de quem aprendia a ler, compor em inglês era algo incrível. Foi como tal que conheci um tropicalista pela primeira vez.

O que se pode cobrar de alguém que tanto nos deu? Como bom seguidor das ambiguidades tropicalistas, acho que por isso mesmo Caetano pode nos proporcionar ainda mais. Defendo que essa nova joia rara do baiano seja a continuação de sua autobiografia.

Em 1997, Caetano escreveu “Verdade Tropical”, a melhor autobiografia de um músico escrita em todo mundo. Não tem para Eric Clapton, Bob Dylan, Fito Paez, nem qualquer outra grande estrela da música mundial que tenha escrito suas memórias. Muito menos para artistas que contaram com ghostwriters, como Miles Davis, Ozzy Osbourne ou Paul McCartney.

Na canção intitulada “Livros”, lançada no mesmo ano de “Verdade Tropical”, Caetano cantou que “os livros que em nossa vida entraram/ são como a radiação de um corpo negro/ apontando para a expansão do universo”. Foi este o impacto de seu livro em mim.

Escrita de próprio punho, a autobiografia de Caetano é um livro reflexivo e descritivo ao mesmo tempo. Denso, sem ser chato, detalhista sem exageros. Menos lido do que merece.

“Verdade Tropical” aborda a vida do baiano desde seu nascimento até a volta do exílio em 1972. Conhecemos em detalhes sua formação musical, seu crescimento intelectual, as relações familiares, os amigos que ajudaram a forjar o tropicalismo, sua angústia e coragem em inovar diante de uma MPB folclorista e tradicionalista. Vivemos com ele os medos de ser um perseguido político e exilado. Caetano nos conta sua volta ao Brasil, quando passou a ser idolatrado até pelas esquerdas que o rejeitaram no auge da Tropicália. Tudo isso escrito de forma sincera, bela e estruturalmente bem articulada. O baiano merece uma vaga na ABL.

E nós, seus ouvintes, merecemos a parte 2 de “Verdade Tropical”. Fazer shows e aparecer na mídia aos 83 anos deve gerar cansaço, imagino eu. Por mais leonino que Caetano seja, chega uma hora que tantas gravações e apresentações cobram um preço.

Pois eu acho que, em busca do sossego que a idade lhe permite, Caetano poderia sentar mais uma vez e escrever sua segunda autobiografia, que contemple de 1972 até hoje. Quiçá mais de um volume!

Caetano não nos deve nada. É toda a “alegria, alegria” que jogou no mundo que quer sempre mais e mais.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

noticia por : UOL

Facebook
Twitter
WhatsApp
Email