O que é a Rockbridge Network, grupo conservador dos EUA que alimenta polêmica eleitoral no Brasil

A Rockbridge Network, grupo conservador que motivou acusações eleitorais nas últimas semanas, é um clube privado e seleto que reúne grandes fortunas e nomes de peso da tecnologia, dos investimentos e da política americana.

Nasceu em 2019, a partir de um encontro fechado em Rockbridge, na área rural de Ohio —daí o nome. Discreta, a organização fala pouco publicamente sobre suas atividades. Detalhes sobre sua constituição, seus financiadores e sua atuação foram revelados em reportagens de veículos como The New York Times, The Washington Post e Reuters.

A Rockbridge foi fundada por J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos, e Chris Buskirk, empresário e investidor conservador. O bilionário Peter Thiel teve papel importante na aproximação dos dois e na origem da rede.

Thiel foi um dos primeiros grandes investidores do Facebook e é cofundador do PayPal e da Palantir Technologies, empresa de software e inteligência artificial especializada em análise de grandes volumes de dados, com forte atuação em defesa, inteligência e segurança nacional.

Ele participou do encontro que deu origem à Rockbridge e foi quem apresentou Vance a Buskirk. Vance, por sua vez, trabalhou em um fundo ligado a Thiel, que anos depois investiria US$ 15 milhões na campanha que o levou ao Senado.

Neste ano, Thiel passou uma temporada em Buenos Aires, onde comprou uma mansão e foi recebido pelo presidente Javier Milei na Casa Rosada. A aproximação ocorreu em meio a um movimento empresarial: seu fundo, Thiel Macro, revelou uma participação de US$ 76 milhões na Vista Energy, uma das principais produtoras de petróleo de Vaca Muerta.

Além de ativistas e intelectuais de direita, a Rockbridge atraiu alguns dos nomes mais influentes do mundo da tecnologia e dos investimentos. Por seus encontros passaram CEOs, fundadores e investidores ligados à inteligência artificial e à infraestrutura necessária para seu avanço, além de defesa e segurança, indústria aeroespacial, criptoativos e venture capital.

Entre eles está Marc Andreessen, pioneiro da internet que fundou a Netscape e depois a Andreessen Horowitz, uma das gigantes do venture capital, com mais de US$ 100 bilhões sob gestão. Também aparecem os irmãos Tyler e Cameron Winklevoss, investidores pioneiros em bitcoin e fundadores da plataforma de criptomoedas Gemini.

Rebekah Mercer, herdeira de uma fortuna construída no mercado financeiro e uma das grandes financiadoras de organizações conservadoras americanas também está ligada à rede. Outro nome é o financista Omeed Malik. Em 2022, discussões entre integrantes da Rockbridge, entre eles Buskirk, Malik e Mercer, deram origem à 1789 Capital.

A gestora é uma organização independente da Rockbridge, mas nasceu dentro desse círculo e levou parte do mesmo ideário. A 1789 diz praticar o “capitalismo patriótico”. Com mais de US$ 1 bilhão em ativos, investe em empresas associadas à chamada economia America First, em áreas como tecnologia, defesa e mídia.

Entre suas investidas estão algumas das empresas que ocupam a fronteira da corrida tecnológica americana, como SpaceX, de foguetes e satélites; xAI, de inteligência artificial; Neuralink, de implantes cerebrais, e Perplexity, de buscas por inteligência artificial.

Documentos internos da Rockbridge que vieram a público nos Estados Unidos ajudam a explicar a lógica da organização. Em um prospecto dirigido a potenciais financiadores, ela se apresentou como uma espécie de “empresa de capital de risco político”, que aplicaria dinheiro e conhecimento na construção de uma nova infraestrutura conservadora.

Entrar nesse círculo custa caro. Segundo documentos obtidos pela imprensa americana, as contribuições variavam de US$ 100 mil a US$ 1 milhão. Os recursos abastecem uma estrutura própria de atuação política, que inclui mobilização eleitoral, pesquisas, mídia e organizações conservadoras. Os integrantes também participam de encontros fechados que aproximam investidores, empresários e formuladores de políticas públicas.

O objetivo declarado em um dos documentos era ambicioso: substituir o que a própria Rockbridge chamou de “atual ecossistema do Partido Republicano” por instituições consideradas mais orientadas à ação.

Por trás dessa articulação política existe uma discussão sobre o papel que empresários e investidores de tecnologia devem desempenhar nos Estados Unidos. Buskirk tem defendido a ascensão de uma nova elite empresarial conservadora, formada em parte no universo tecnológico e de investimentos, em contraposição ao poder que atribui a uma elite gerencial instalada em universidades, meios de comunicação, grandes corporações e na burocracia estatal.

Essa visão não pode ser atribuída indistintamente a todos os integrantes da Rockbridge, mas ajuda a compreender por que tecnologia, poder político e segurança nacional aparecem cada vez mais entrelaçados nesse universo.

Um exemplo está fora da própria Rockbridge. Não há evidência pública de que Alexander Karp, CEO da Palantir, seja membro da rede. Em “A República Tecnológica”, livro escrito com Nicholas Zamiska e publicado no Brasil, Karp defende que o Vale do Silício volte a direcionar parte de sua capacidade de inovação para projetos estratégicos dos Estados Unidos, especialmente nas áreas de inteligência artificial e defesa.

A discussão ocorre em meio à disputa entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica. Nela, a supremacia econômica e militar depende não apenas de armas ou reservas de petróleo, mas também do domínio de inteligência artificial, semicondutores, capacidade computacional e das cadeias físicas que tornam essas tecnologias possíveis.

A economia digital depende de uma infraestrutura muito concreta. A expansão da inteligência artificial exige data centers e grandes volumes de energia, além de semicondutores e diferentes minerais críticos para equipamentos eletrônicos, baterias, motores, sistemas de defesa e outras tecnologias avançadas.

É nesse ponto que a expansão internacional da Rockbridge ganha outra dimensão.

Fora dos Estados Unidos, a rede começou a se aproximar de países capazes de ocupar posições relevantes nessas cadeias. O exemplo mais claro é a Coreia do Sul, potência na fabricação de semicondutores, baterias e outros componentes tecnológicos.

Chris Buskirk participou pessoalmente dessa aproximação. Reportagens sul-coreanas também apontaram interesse em ampliar o movimento para outros países, entre eles Taiwan, Índia e Brasil.

O Brasil tem um grande mercado consumidor, energia e algumas das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos para diferentes segmentos da indústria tecnológica.

noticia por : UOL

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