Oito táticas que os candidatos usam para manipular você — e como reconhecer cada uma

A poucas semanas da eleição de outubro, o candidato Flávio Bolsonaro já trocou duas vezes o comando de sua comunicação, e a mudança mais recente (a chegada do marqueteiro Duda Lima, que fez a campanha de Jair Bolsonaro em 2022) subiu o tom dos ataques a Lula e ao Supremo. No governo, Lula aposentou o “paz e amor” que ajudou a elegê-lo por um tom mais combativo e uma presença digital afiada em memes e no ataque direto ao adversário.

Essas viradas são a parte visível de uma operação permanente para agir sobre o voto, um ofício com repertório testado ao longo de décadas de campanha. Esse repertório vai da persuasão, que informa a decisão de quem vota, até a manipulação, que se aproveita dela. O que separa uma da outra é a quem a técnica serve: se ajuda o eleitor a decidir ou se apenas explora seus atalhos mentais em favor de quem controla a mensagem. É uma distinção que a psicologia da persuasão estuda há meio século.

1. Enquadramento: o desarmamento e a escolha da pergunta

Em 2005, os brasileiros foram às urnas decidir se a venda de armas de fogo seria proibida no país. A campanha pelo “sim” à proibição falava em reduzir mortes. Do outro lado, o publicitário Chico Santa Rita deslocou a pergunta: tirou o foco do número de armas em circulação e o colocou no direito de o cidadão defender a própria casa. O “não” venceu com folga.

Enquadrar é isso: selecionar o aspecto de um problema que o público vai enxergar primeiro, sabendo que os demais permanecem na sombra. O conceito foi popularizado por George Lakoff, linguista da Universidade da Califórnia que estudou como as palavras moldam a percepção política, e se apoia numa descoberta que rendeu um Prêmio Nobel: os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que a mesma informação, apresentada como perda ou como ganho, produz decisões diferentes. O enquadramento não é desonesto por si — todo argumento escolhe um ângulo. Ele vira manipulação quando o ângulo escolhido esconde de propósito o custo que existe do outro lado. Para reconhecê-lo, a pergunta é o que ficou de fora do quadro.