A operação do governo brasileiro para repatriar a única cidadã nacional ainda viva a fazer parte do Estado Islâmico envolveu apoio da Cruz Vermelha, escolta com soldados fortemente armados e a passagem por regiões com presença crescente de células ativas do grupo terrorista que dominou parte da Síria e do Iraque entre 2014 e 2019.
Ao todo, representantes da Embaixada do Brasil em Damasco passaram quatro dias na estrada e percorreram cerca de 1.500 quilômetros por algumas das regiões que formavam o coração do Estado Islâmico na Síria, incluindo Raqqa, a capital oficial do califado criado pelo terrorista iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi.
Foi uma viagem na qual os principais apoiadores do comboio brasileiro —a Cruz Vermelha e a principal milícia curda— temiam que Karina Barbosa e seu filho de apenas sete anos pudessem ser resgatados por membros do Estado Islâmico.
A missão de repatriação da jovem paraense de 28 anos, que fugiu de casa há quase dez anos, foi o fim de uma série de negociações entre o governo brasileiro, as forças curdas e o novo governo que assumiu o poder na Síria após a queda do ditador Bashar al-Assad, no final do ano passado.
Fontes da diplomacia brasileira que acompanharam o caso de perto dizem que a queda do regime de Assad abriu uma rara janela de negociação com os curdos sem a necessidade de alijar Damasco de um acordo para repatriar Karina, presa desde 2019 em centros de detenção de acusados de integrarem o Estado Islâmico nas áreas controladas pela minoria curda do país.
Centenas de mulheres e crianças acusadas de fazerem parte do Estado Islâmico, presas após as últimas batalhas contra o grupo terrorista, foram repatriadas para mais de uma dezena de países, como Estados Unidos, França, Bélgica e Reino Unido, entre outros. Todas deixaram a Síria sem autorização do governo central, por uma rota que liga Rojava, a região autônoma controlada pelos curdos sírios, ao Curdistão iraquiano.
Karina foi a primeira prisioneira ligada ao Estado Islâmico a deixar Rojava rumo a Damasco com autorização do governo sírio, agora comandado por Ahmed al-Sharaa, um ex-comandante da Al Qaeda e do próprio Estado Islâmico. Conhecido em seus tempos de combatente como Mohammad al-Jolani, Sharaa afirma ter abandonado o radicalismo ao criar seu próprio grupo, o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), e ao se aproximar de inimigos históricos de Bashar al-Assad, como os EUA e a Turquia.
Apesar disso, soldados do HTS que tomaram Damasco após o colapso do regime de Assad podiam ser vistos nas principais áreas da capital síria, em janeiro, com o símbolo do Estado Islâmico estampado em seus uniformes.
Os diplomatas brasileiros receberam Karina das mãos de representantes de um virtual ministério das Relações Internacionais das forças curdas na cidade de Qamishli, a capital de Rojava, já próxima da fronteira com a Turquia e o Iraque —apesar de contar com burocracia própria, a Rojava não é reconhecida por nenhum país do mundo.
De lá, sob escolta de homens fortemente armados, diplomatas brasileiros, Karina e o filho foram levados para um hotel na cidade de Amuda, que foi completamente esvaziado para receber os brasileiros. Dois soldados ficaram de prontidão na porta do quarto onde Karina e o filho dormiam. Na manhã desta segunda-feira (25), um comboio formado por soldados curdos armados com rifles de assalto escoltou os brasileiros em alta velocidade até a cidade de Tabqa, nos limites do controle curdo.
Lá Fora
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De acordo com a família de Karina, foi uma viagem dura, com ela e o filho sofrendo de problemas gástricos e vomitando constantemente. Em Tabqa, um novo comboio da Cruz Vermelha deu apoio aos brasileiros para cruzar uma zona desmilitarizada. Karina e o filho dormiram uma noite em Damasco sob os cuidados das autoridades brasileiras e deixaram a Síria na terça-feira em direção a São Paulo, onde foram entregues a seus familiares, que moram na região do ABC paulista. No trajeto entre o aeroporto e a residência dos pais, voltaram a ter enjoos, mas logo se recuperaram.
O primeiro dia dos dois no Brasil foi de reencontros emocionados após quase dez anos da saída de Karina do país. Seu filho, um menino de sete anos, passou o dia brincando com os primos e comendo balas, doces, bolos e pizza, alimentos praticamente inexistentes nos campos de prisioneiros da Síria.
O menino ainda não fala português e se comunica principalmente em inglês. Da Síria trouxe apenas revistinhas da Turma da Mônica, enviadas por um brasileiro que esteve em Rojava no ano passado. Na primeira noite no Brasil, o menino que passou a vida em campos de prisioneiros ligados ao Estado Islâmico realizou o maior sonho que tinha em sua curta vida: dormir em uma cama só dele.
noticia por : UOL






