Passatempo resgata 'sabor da infância' em meio a críticas, elogios e onda de nostalgia

A Nestlé aderiu à onda de nostalgia que vem tomando conta do mercado de consumo e lançou, há poucas semanas, a bolacha Passatempo em versão que promete resgatar o sabor que marcou a infância de muitos consumidores.

Nas redes sociais, os relatos se dividem entre aqueles que se alegraram ao encontrar mais um produto nostálgico e os que reclamaram da nova receita. O mesmo acontece com itens como o chocolate Surpresa, também da Nestlé, e o biscoito Chocolícia. Já outros produtos, como o brilho labial de morango da Avon, os “palitos premiados” da Kibon e a colônia Ma Chérie do Boticário, conquistaram a maioria dos consumidores.

A equipe da Folha provou a nova Passatempo e comparou com a versão anterior, que ainda é a mais comum de ser encontrada em supermercados na capital paulista.

Parte dos que degustaram concorda que o “Sabor da Infância” recuperou uma fórmula mais próxima da original. No entanto, outros consideraram o produto ainda muito artificial e distante do gosto tradicional que fez sucesso nas décadas passadas.

Patricia Artoni, professora de marketing da FIA Business School, afirma que o marketing nostálgico surge como uma resposta à sobrecarga de opções no mercado atual. “Vivemos em um mundo acelerado e incerto, e produtos e experiências que evocam o passado oferecem uma sensação de conforto e familiaridade que muitos consumidores procuram”, diz a especialista.

Para ela, é importante que as marcas escolham o momento certo para relançar alguns produtos. “Em períodos de incerteza econômica ou social, o apelo nostálgico tende a se fortalecer, pois as pessoas buscam conforto em elementos familiares”, diz.

Ao optar por produtos conhecidos, os consumidores tendem a reduzir a sensação de arrependimento pós-compra, afirma. Patricia ressalta que o relançamento de clássicos pode ser uma estratégia eficaz para as marcas se diferenciarem, atraindo rapidamente atenção e gerando engajamento nas redes sociais.





Esse fenômeno também está ligado à busca por autenticidade e conexão em uma era digital. Os produtos nostálgicos oferecem uma ponte tangível com o passado, permitindo que as pessoas revivam experiências e compartilhem memórias com outras gerações

Na opinião da professora, no entanto, essa estratégia não está livre de riscos. Um dos principais desafios é lidar com as altas expectativas dos consumidores, que podem ter memórias idealizadas que o produto relançado não consegue atender. “Outro ponto crucial é o equilíbrio entre resgatar o passado e a necessidade de inovação. Um foco excessivo na nostalgia pode dificultar a conexão com as gerações mais jovens e impedir a evolução da marca”, diz.

No caso da Passatempo, ao comparar as tabelas nutricionais, é possível observar que há mais sódio na nova fórmula. Enquanto a versão mais recente tinha 110 mg de sódio a cada 100 g, a nova contém 244 mg.

As duas bolachas têm o cacau como um de seus ingredientes. A versão “Sabor da Infância” perdeu o chocolate da lista e ganhou dois derivados do leite: o permeado de soro de leite e o soro de leite.

Segundo Juliana Gomes, autora da newsletter Jornal do Veneno, a nova versão também tem mais gordura vegetal do que cacau, uma vez que, na anterior, o cacau aparecia antes na lista de ingredientes.

Além disso, a embalagem agora traz a indicação “sabor chocolate”, e não mais “chocolate”. Juliana diz que a mudança pode ter ocorrido devido a uma determinação da Anvisa (agência reguladora), que exige o uso da expressão “sabor de” quando há apenas aromatizante ou um percentual pequeno do ingrediente que confere o sabor.

A Nestlé, proprietária da marca, afirmou que a nova fórmula não teve aumento de açúcar e que as principais características do novo Passatempo são o biscoito com perfil mais amanteigado e o chocolate com toque de baunilha.

Tatiana Matuda, professora de engenheira de alimentos do Instituto Mauá de Tecnologia, destaca que a nova formulação tem mais proteínas, fibras, gordura saturada (apesar da quantidade de gorduras totais ser a mesma) e sódio. Houve também redução do cálcio e de carboidratos.

Segundo a Nestlé, a decisão de reformular o produto foi tomada “após uma série de pesquisas que indicaram que a receita dos anos 2000 foi a mais marcante entre os consumidores”.

Tatiana afirma que, apesar do aumento da gordura saturada e do sódio, as novas quantidades continuam abaixo do estipulado pela Anvisa para apresentar as lupas que indicam, na embalagem, “alto em gordura saturada” ou “alto em sódio”.

Outra mudança na versão ‘clássica’ que está sendo relançada é a ausência de cálcio. A versão anterior era anunciada como “fonte de cálcio”. Juliana diz que a mudança é positiva. “Ultraprocessado é ultraprocessado. Vender esse produto como fonte de cálcio seria enganoso para as famílias”, afirma.

A nova versão da Passatempo começou a ser vendida no último mês. Nas redes sociais, parte dos consumidores afirmou que a receita realmente trouxe de volta o sabor nostálgico da infância:

Outros reclamaram da nova receita. Os consumidores dizem sentir falta do período em que o biscoito era recheado com o chocolate Alpino:

As reclamações de quem encontra a antiga receita também continuam:

noticia por : UOL

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