Carlos Lemos, morto nesta quarta (6), aos cem anos, foi um profundo conhecedor da arquitetura nacional, além de historiador, professor da FAU-USP, dirigente do Condephaat de São Paulo, além de ter feito parte da equipe que, nos anos 1950, projetou o parque Ibirapuera, trabalhando com Oscar Niemeyer.
Pintor e escritor, também se dedicou à recuperação de vários prédios históricos, como na cidade de São Sebastião, no litoral norte paulista. Numa conversa em 2013 com Francesca Angiolillo, dentre as várias entrevistas concedidas à Folha, defendeu que a preservação não é uma forma de saudosismo, reconhecendo que a modernidade também precisa se refletir nos monumentos. “Seria uma estultice exigir que uma construção antiga permaneça como era. Ela fica sem uso e, quando não usa, estraga”, disse.
Comentou ainda a dificuldade de mostrar ao público que a história é algo contínuo no presente, não presa ao passado, e que essa percepção falha é fruto também da mistura de ondas migratórias no país, que implicam em juízos de valor diferentes.
Relembre, abaixo, a íntegra da entrevista.
Falar aos leigos é uma vocação de Carlos A. C. Lemos. Ele é, por exemplo, o homem que definiu, nos livrinhos da marcante coleção Primeiros Passos, “O que É Arquitetura” e “O que É Patrimônio Histórico”.
Mas, ainda antes da série da Brasiliense, desde o fim dos anos 1950, ele tem praticado, com discurso claro, a defesa dos “bens da cultura material”, em artigos como os agora reunidos em “Da Taipa ao Concreto”.
Arquiteto (foi braço direito de Niemeyer em São Paulo, capitaneando a construção do Copan) e professor de história da arquitetura da FAU-USP, Lemos expressa sua preocupação com a dificuldade do público geral em ver a história não como algo passado, mas como um contínuo.
“É a coisa mais complicada do mundo”, diz à Folha. “Tem gente que não entende a importância do patrimônio, por que aquilo foi escolhido para ser tombado. As pessoas têm tendência a ‘gostar’ do antigo. Mas há coisas importantíssimas de hoje que passam despercebidas, deixam derrubar.”
Para o professor, que foi o primeiro arquiteto a atuar no Condephaat (órgão criado em 1968 para proteger o patrimônio em São Paulo), dois aspectos contribuem para a percepção falha de que a construção da memória é um processo cotidiano.
Um é o que ele chama “fatalidade americana”: o fato de que a população do continente se compõe, até hoje, de ondas de migração distintas. “Imigrantes diferentes pensam diferente, têm saudades diferentes, têm juízos de valor diferentes.”
O outro se origina, ironicamente, das políticas de preservação do patrimônio no país, com a criação, em 1937, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, hoje Iphan).
“Essa palavra ‘nacional’ foi traduzida como ‘brasileiro'”, explica. Assim, o período entre a taipa colonial e o concreto modernista, aquele da arquitetura eclética de origem italiana que marcou São Paulo entre o século 19 e o 20, teria sido menosprezado pela noção vigente no órgão, apesar da excelência de colaboradores como Lucio Costa (1902-1998).
“Lucio Costa, pessoa extremamente importante da história da arquitetura brasileira, foi partícipe desse desleixo em relação à memória dos imigrantes”, lamenta Lemos —que, porém, refuta o saudosismo.
“Tem muita gente exagerada que não entende que o progresso tem de se instalar inclusive nos monumentos. É o continente que se adequa ao conteúdo. Seria uma estultice exigir que uma construção antiga permaneça como era. Ela fica sem uso e, quando não usa, estraga.”
noticia por : UOL






