Em uma game house montada no quintal da própria casa, em Itatiaia, no sul do Rio de Janeiro, o empresário William Santos, 38, transformou o videogame em moeda de troca para incentivar a leitura. No espaço, crianças e adolescentes ganham tempo gratuito nos consoles depois de dedicar alguns minutos aos livros disponíveis no local.
A regra é simples: a cada dez minutos de leitura, o frequentador recebe o dobro de tempo para jogar. Foi assim que a estudante Brunna Karlla, 14, passou quase uma hora lendo o livro “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” [editora Rocco, R$ 59,18 em versão física, 348 páginas], e, ao final, recusou o videogame para levar o livro emprestado para casa. Segundo o dono da game house, o resumo feito pela menina chamou atenção. “Ela fez um resumo muito caprichado, tanto pelo conteúdo quanto pela letra. E o que mais me marcou foi que ela não quis jogar. Ela veio aqui só para ler”, afirma.
O espaço fica nos fundos da casa de William, no bairro Jardim Marchetti. Ele conta que a ideia surgiu ao perceber que muitas crianças frequentavam o local sem dinheiro para jogar. “Eu via muitos garotos chegarem, ficarem olhando, olhando, e irem embora sem jogar. Aquilo me incomodava. Eu pensei: tenho que fazer alguma coisa para que eles possam jogar”, diz.
Antes de chegar à leitura, ele tentou trocar materiais recicláveis por tempo de jogo, mas a proposta gerou críticas nas redes sociais. Foi então que decidiu apostar nos livros, que, para ele, poderiam ter impacto mais duradouro. “A leitura vai influenciar na vida deles. Pode ser que eu não usufrua disso agora, mas lá na frente alguém vai colher esse resultado.”
Hoje, a game house recebe entre 30 e 40 jovens por dia. Parte deles já incorporou o hábito de leitura à rotina. “No começo, foi muito estranho para eles. Eles não entendiam direito. Perguntavam quanto tempo tinham que ler, como funcionava. Hoje não. Hoje eles chegam e já pedem a ficha de leitura”, conta.
O controle é feito em um formulário onde os próprios usuários anotam título, autor e páginas lidas, para retomar de onde pararam. “É tudo bem simples, mas bem organizado. Eles mesmos se controlam”, diz.
Segundo William, a mudança de comportamento é visível. “Alguns vêm, leem, fazem o resumo e vão embora sem nem querer jogar. Isso, para mim, é muito forte. Porque é uma game house, né? E quando a pessoa vem só para ler, chama muita atenção”, afirma.
O acervo com cerca de 150 livros, foi formado em grande parte por doações. William conta que comprou alguns exemplares no início, mas que a maioria chegou depois, impulsionada pela repercussão nas redes sociais. Hoje, ele soma mais de 320 mil seguidores, que acompanham a rotina da game house e ajudam a ampliar o alcance do projeto, impulsionando a iniciativa para além da comunidade local.
“Eu comprei uns dez livros no começo. Depois disso, nunca mais precisei comprar. As pessoas começaram a mandar, autores começaram a enviar, seguidores também. Hoje, praticamente tudo aqui é doação”, diz.
A visibilidade também tem atraído novos frequentadores, inclusive de fora do bairro. “Tem criança que eu nunca vi aqui na região, e o bairro nem é grande. Eles vêm porque ficam sabendo que podem jogar mesmo sem dinheiro.”
Nem todos os frequentadores sabem ler. Para incluir as crianças menores, William propõe alternativas. ” Eu peço para fazer um desenho, imaginar alguma coisa. A ideia é não deixar ninguém de fora.”
A reação dos pais, no entanto, ainda surpreende. “Teve pai que falou: ‘meu filho não lê nem em casa, e está lendo aqui’. Eles ficam admirados, meio sem entender. Acham estranho ver leitura em uma game house”, diz.
A relação com os livros, no caso dele, foi limitada na infância. William começou a trabalhar cedo, não concluiu os estudos e teve pouco acesso à leitura. “Eu quase não tive contato com livro. Hoje vejo que poderia ter feito diferença. Por isso tento fazer algo por eles”, afirma.
A game house funciona desde 2019, e a proposta de troca entre leitura e jogo começou no fim de 2023. Desde então, o movimento aumentou e passou a transformar o espaço em um ponto de encontro que mistura entretenimento e incentivo cultural.
O local abre segunda, terça, quinta e sexta, das 14h às 20h. Pela manhã, William trabalha como piscineiro. A renda para manter a estrutura vem principalmente da venda de alimentos aos frequentadores, como açaí, refrigerantes e doces. “O que sustenta aqui são as vendas. A biblioteca não dá lucro, é só para eles mesmo”, diz. A conta de energia, que chega a quase R$ 700, é o principal desafio.
Apesar disso, ele afirma que não pensa em parar. “Isso aqui é um entretenimento para eles e uma forma de incluir todo mundo. Ninguém fica de fora”, diz. “Pode ser que eu não veja o resultado agora, mas tenho certeza de que isso vai fazer diferença no futuro dessas crianças.”
noticia por : UOL









