“Respeite a minha história”, pede Cleitinho Azevedo no boné e na camiseta que aparecem no material oficial de sua campanha ao governo de Minas Gerais registrado no TSE. O pedido é feito pelo candidato cuja trajetória política começa muito antes das urnas — e passa, entre outras coisas, pela carreira de verdureiro e por uma banda de pagode que, segundo o próprio Cleitinho, chegou a ser comparada aos Mamonas Assassinas.
A comparação, porém, traz uma ressalva importante. Em uma entrevista quando ainda era vereador na cidade mineira de Divinópolis, Cleitinho contou que sua banda era comparada ao grupo de Guarulhos pela irreverência. Mas fez questão de estabelecer uma diferença: os Mamonas tinham “irreverência e musicalidade”; ele, que na época era conhecido pelo nome artístico de “Cleitinho Elétrico”, diz que tinha apenas a primeira. A qualidade musical, portanto, não era exatamente sua principal marca como artista.
Antes de se eleger deputado estadual, senador e agora se lançar como candidato ao governo de Minas, ele também foi comerciante e produtor de vídeos que misturavam humor e críticas políticas. Descobriu nas redes sociais uma forma de transformar irreverência em popularidade — e popularidade em votos.
Do pagode à disputa pelo Palácio Tiradentes, Cleitinho percorreu um caminho improvável. E, se a música não foi exatamente seu forte, a irreverência e o temperamento imprevisível acabou se mostrando um ativo político bastante valioso.
Do varejão de verduras ao palco
Cleiton Gontijo de Azevedo nasceu em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, em 15 de abril de 1982. Antes da política, trabalhou no comércio de verduras da família. De dia, convivia com os trabalhadores, comerciantes e clientes da cidade. De noite, além do trabalho junto aos Brotos do Samba, banda de pagode da qual fez parte, Cleitinho fazia apresentações solo em bares, clubes e eventos em Divinópolis.
Fora o repertório musical de gosto duvidoso, “Cleitinho Elétrico” também aproveitava o contato com o público para reclamar dos problemas da cidade e da região, criticar as administrações municipais e fazer discursos contra o que via como privilégios da classe política.
As críticas deram munição para que prefeitos pedissem o cancelamento de algumas de suas apresentações. A saída encontrada por Cleitinho foi, então, fazer da internet seu palco.
Os vídeos acabaram se afastando do padrão tradicional dos artistas populares. Em vez de apenas promover suas músicas, Cleitinho passou a inserir moradores de rua e travestis nas produções e a fazer ainda mais críticas a políticos. Quando conseguia subir aos palcos, seguia atacando tudo o que pudesse ser identificado com política.
A estratégia teve um efeito inesperado. Segundo o próprio relato, sua popularidade em Divinópolis cresceu, embora seus shows tenham diminuído. Ele percebeu que havia conquistado uma audiência que talvez não estivesse interessada apenas em música. Foi nesse ambiente que nasceu o personagem político.
De crítico dos políticos a vereador, deputado e senador
Cleitinho descobriu antes de muitos políticos locais que as redes sociais poderiam funcionar como uma espécie de palanque permanente. A comunicação direta, os vídeos curtos e a linguagem informal e sem freios se tornaram instrumentos para denunciar problemas e criticar autoridades.
De tanto criticar a política, Cleitinho acabou ganhando popularidade suficiente para elegê-lo a um cargo no Legislativo local. Em 2016, Cleitinho foi eleito vereador de Divinópolis pelo PPS com 3 mil votos, então a terceira maior votação para o cargo na cidade. Dois anos depois, deu um salto para a Assembleia Legislativa: recebeu 115,5 mil votos e foi eleito deputado estadual pela mesma legenda.
A ascensão continuou em 2022. Filiado ao PSC, foi eleito senador por Minas Gerais com mais de 4,2 milhões de votos. O resultado fez dele o primeiro colocado na disputa pelo Senado no estado.
Nome de Cleitinho passou por “montanha-russa” na indicação como candidato
Em uma década, Cleitinho experimentou uma aceleração rara entre os políticos tradicionais. Ele saiu de verdureiro e cantor de pagode para vereador, depois para deputado estadual e senador e agora está na disputa pelo governo mineiro.
E a movimentação que o colocou na disputa pelo governo de Minas Gerais diz muito sobre a personalidade irrequieta e o jeito imprevisível de Cleitinho. Seu nome passou por uma verdadeira montanha-russa antes de ser finalmente confirmado na disputa.
No fim de julho, depois de semanas de especulações, o senador convocou uma coletiva para anunciar, com entusiasmo, que entraria na disputa pelo Palácio Tiradentes. A decisão, porém, durou pouco. Em 3 de agosto, Cleitinho apareceu em um vídeo ao lado de lideranças nacionais e estaduais do Republicanos, chorou e anunciou que estava desistindo da candidatura por motivos pessoais.
A história parecia encerrada. Mas a narrativa durou apenas quatro dias.
Em um novo movimento, o senador voltou atrás e pediu à cúpula do partido para retomar a candidatura. Desta vez, justificou a mudança dizendo que havia reconsiderado a decisão em nome da família. Ele também citou supostos apelos de professores, policiais militares, caminhoneiros e profissionais de enfermagem, que, segundo ele, queriam vê-lo novamente como candidato.
O Republicanos acabou aceitando o novo recuo do recuo. Com isso, a novela chegou ao fim: Cleitinho foi novamente confirmado como candidato ao governo de Minas. Depois do anúncio, da desistência e do retorno em pouco mais de uma semana, o senador finalmente colocou um ponto final na própria indefinição e entrou oficialmente na corrida pelo Palácio Tiradentes.
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Mudança do Legislativo para o Executivo expõe contradição
O episódio revela uma característica que acompanha sua carreira: Cleitinho é imprevisível e parece não se encaixar facilmente nos arranjos tradicionais da política partidária. Sua força eleitoral veio justamente de uma posição de relativa independência em relação à estrutura política convencional. Mas uma candidatura majoritária como a de governador exige acordos entre partidos, alianças, estrutura, palanque e negociação.
No Legislativo, o discurso de Cleitinho pode ser resumido em perguntas relativamente simples: por que o Estado gasta tanto? Por que políticos têm tantos privilégios? Por que determinada taxa ou imposto existe? Por que o Congresso não enfrenta o STF?
Mas no Executivo, as perguntas mudam. Um governador precisa decidir onde cortar, onde gastar, como arrecadar, como negociar com o governo federal, como lidar com servidores, como administrar a dívida, como financiar saúde e educação e como estabelecer prioridades para uma máquina pública muito maior do que um gabinete parlamentar.
Por trás de sua ascensão meteórica, Cleitinho traz consigo uma forte contradição. Sua força política surgiu e ganhou corpo justamente por ele dizer aos quatro ventos que não queria ser um político. O senador chegou ao poder com um discurso avesso ao comportamento da política que ele tanto criticava.
Mas quanto mais alto ele sobe, mais ele precisa lidar com as estruturas que antes combatia: partidos, alianças, grupos políticos, eleições majoritárias e negociações. Talvez a persona do “Cleitinho Elétrico” tenha que ser lapidada, para o bem ou para o mal, para que ele consiga governar caso seja eleito para o Palácio Tiradentes.
O Cleitinho vereador podia dizer que iria fiscalizar a prefeitura. O Cleitinho deputado podia dizer que iria escrutinar o governo do estado. O Cleitinho senador pode cobrar o governo federal e o Supremo. Mas o Cleitinho candidato a governador precisa gerir uma máquina de governo.
Agora, pela primeira vez, ele tenta convencer o eleitor de que as mesmas características que funcionaram tão bem para o colocar em cargos capazes de fiscalizar e criticar também são capazes de o alçar como administrador do estado de Minas Gerais. De pedra, Cleitinho pode estar tentando se tornar vidraça.
noticia por : Gazeta do Povo













