Regina Dalcastagnè rearranja a paisagem da literatura brasileira

“Uma História da Literatura Brasileira Contemporânea – A Narrativa”, assinado por Regina Dalcastagnè, apresenta vasto panorama dos autores, autoras, obras individuais e temas recorrentes na prosa narrativa brasileira dos anos 1970 aos dias atuais.

O alentado volume vem preencher lacuna bibliográfica e atende a uma demanda do público interessado pelas letras, dentro e fora das universidades.

No livro, encontramos o coroamento e a síntese da coerente trajetória de pesquisa da autora. Além disso, é uma espécie de contraface do incontornável site Praça Clóvis, por ela coordenado, congregando um número expressivo de pesquisadores da produção ficcional contemporânea.

Essa “história do presente” rearranja a paisagem dos estudos literários, ao restaurar, ou recolocar em cena, o projeto de uma sistematização abrangente, útil como manual de referência, sobre um amplo período de tempo. No caso, são 50 anos de ficção brasileira. Meio século, quebrado entre os séculos 20 e 21.

Já era hora. Longe estão os tempos em que os principais textos de referência panorâmica em nossa história literária eram a frequentadíssima “História Concisa da Literatura Brasileira”, de Alfredo Bosi, e os monumentais cinco volumes de “A Literatura no Brasil”, reunindo dezenas de estudos temáticos, sob a coordenação de Afrânio Coutinho.

Sobrepairando a todos, a obra magna, a “Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido, panorâmica como a de Bosi, embora circunscrita a período limitado, cobrindo autores, obras e movimentos estéticos entre os séculos 18 e 19.

Desde os anos 1980, porém, profissionais e aficionados da literatura minimizaram abordagens panorâmicas, manuais e outros materiais didáticos. Com o desenvolvimento da pesquisa universitária, sobretudo aquela vinculada à exploração de arquivos de escritores, disseminaram-se trabalhos aprofundados sobre questões específicas.

Desse modo, foi escrita, de maneira coletiva, uma história da literatura brasileira fragmentada, prismática, disseminada por respeitável massa de excelentes estudos monográficos, em livros e artigos.

A “História” de Regina Dalcastagné reata com o ponto em que terminavam clássicos como o de Bosi —os anos 1968 a 1970. Assim, ela apresenta, como parte do contemporâneo, obras muito representativas dos anos 1970. Seu corpus postula a continuidade entre a produção ficcional brasileira dos anos 1970 e 1980 e o que apareceu desde os anos 1990.

Tenho impressão de que algumas das obras do século passado mencionadas no livro já são hoje encaradas como clássicos de referência por cabeças letradas neste nosso século 21. São ícones cult que inspiraram alguns dos melhores autores e autoras surgidos desde a virada do século. A simples sucessão de gerações sugere, portanto, pensar descontinuidades.

Mas Dalcastagnè, a meu ver, tem razão em advogar a necessidade de uma revisão, um reajuste de contas com o legado das gerações 70 e 80. Há que consolidar o lugar canônico da melhor prosa daqueles tempos agitados, anticonvencionais.

É um novo pacto de leitura. Na perspectiva crítica de Dalcastagné, isso significa rever aquela produção usando lentes bem contemporâneas, voltadas para avaliar, nas obras, os modos de presença e ausência dos grupos excluídos da sociedade e do próprio campo literário.

Antes de uma história “da literatura”, temos aqui elementos para uma história do “campo literário”, adotando princípios da sociologia de Pierre Bourdieu, o que cria um braço interdisciplinar entre o projeto da autora e vertentes críticas da área da educação no Brasil.

A história do campo literário, tal como encarada por Dalcastagnè, segue pari passu a história social e política do país, definida como processo de luta contínua por democratização —por sua vez entendida como conquista de espaços sociais e culturais por segmentos marginalizados, silenciados.

A literatura é valorizada como voz de emancipação social, recaindo sobre ela a expectativa de que assuma responsabilidade diante das lutas.

Estamos diante de certo discurso dominante, correspondente a uma universidade e a um lugar dos estudos literários na cultura brasileira diversos daqueles vigentes nos tempos de Bosi e Candido.

Se estes organizavam a compreensão da produção literária segundo valores e critérios da história das artes e ideias, os estudos de mapeamento atuais fazem uma espécie de jornalismo crítico permanente da produção de livros de ficção narrativa.

É o saber acadêmico num corpo a corpo com o cotidiano, tendo de um lado o mercado e circuitos em rede, de outro as lutas emancipatórias identitárias, em ritmo de notícia, no estilo da crônica e de resenha. De um lado, os estudos literários no sentido tradicional. De outro, os estudos literários vinculados à comunicação.

A literatura encarada como prática comunicacional, entre política e pedagogia. Acredito ser possível o diálogo entre os dois lados, seja puxando fios que estão nesta “uma história” de Regina Dalcastagnè, seja procurando pontos fora da curva por ela desenhada.

noticia por : UOL

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