Em cerimônia de posse como presidente do Federal Reserve no mês passado, Kevin M. Warsh destacou apenas um de seus antecessores como modelo para comandar um banco central: Alan Greenspan, que liderou o Fed por quase duas décadas antes de deixar o cargo em 2006.
“Assim como Alan, pretendo exercer o cargo de presidente com energia e propósito, exatamente como o presidente Greenspan fez, fiel à missão e às melhores tradições do Fed”, disse Warsh em suas primeiras declarações no cargo.
Greenspan morreu na segunda-feira (21) aos 100 anos. Warsh, que prometeu liderar um Fed “orientado para reformas”, está dando continuidade ao legado de Greenspan de várias maneiras importantes. Isso abrange desde como o Fed comunica planos para as taxas de juros até os dados aos quais atribui maior peso para tomar decisões de política monetária.
O mandato de Greenspan recebeu elogios no dia de sua morte em Wall Street e em Washington. Em seu próprio comunicado, o Fed o celebrou por guiar o banco central por “períodos de significativa expansão econômica, bem como períodos de considerável estresse”, ajudando a “estabelecer a credibilidade que continua sendo um dos ativos mais importantes do Federal Reserve”.
No entanto, o mandato de Greenspan não foi isento de manchas, dadas as bolhas que ele permitiu que se formassem enquanto supervisionava o banco central, a mais grave das quais culminou na crise financeira global de 2008.
Warsh, que herda um ambiente excepcionalmente complicado como presidente do Fed, já está enfrentando testes. A inflação está alta demais e permanece acima da meta de 2% do banco central há tempo demais.
Há mudanças potencialmente sísmicas sendo introduzidas pelo boom da inteligência artificial, que está mudando fundamentalmente como as autoridades pensam sobre produtividade e mercado de trabalho. O Fed também está em processo de reduzir muitas das regras e regulamentações que controlam o mercado, enquanto riscos financeiros estão se acumulando em partes mais opacas do sistema, como o crédito privado.
Também há a campanha implacável que o presidente Donald Trump mantém há mais de um ano contra o banco central e capacidade de definir políticas livre de interferência política. O republicano indicou Warsh ao cargo.
COMUNICAÇÃO CUIDADOSA
Hoje, frequentemente se lembra Greenspan pelos pronunciamentos enigmáticos que deixavam o público tentando adivinhar suas opiniões —uma imagem que ele abraçava.
“Desde que me tornei um banqueiro central, aprendi a murmurar com grande incoerência”, disse ele ao Congresso americano em 1987. “Se pareço indevidamente claro para vocês, vocês devem ter entendido mal o que eu disse.”
Mas, apesar de sua reputação oracular, Greenspan conduziu o Fed em direção a mais transparência. Quando assumiu a presidência em 1987, o banco central não anunciava suas decisões de política, deixando os investidores analisarem os movimentos do mercado financeiro para determinar se as autoridades haviam agido ou não.
Em 1994, no entanto, Greenspan decidiu que o Fed deveria começar a divulgar suas decisões publicamente. Em 1999, ele determinou que o banco central emitisse comunicados após cada reunião, mesmo que as taxas permanecessem inalteradas.
“Ele não queria que os mercados ficassem confusos sobre o que estávamos fazendo”, disse Donald Kohn, que trabalhou com Greenspan e depois foi vice-presidente do Fed. Greenspan era até inclinado a fornecer a chamada orientação futura, ou seja, sinais sobre o que o banco central poderia fazer com as taxas. “Era de curto prazo. Ele era altamente cético em relação à orientação futura de longo prazo”, disse Kohn.
Os sucessores de Greenspan expandiram essa mudança e adotaram significativamente mais transparência. Em 2012, sob Ben Bernanke, o Fed passou a divulgar as estimativas das autoridades para as taxas nos anos seguintes no que ficou conhecido como “dot plot”. E logo após Jerome Powell assumir a presidência em 2018, ele introduziu coletivas de imprensa após cada uma das oito reuniões de política do Fed. Anteriormente, as coletivas eram realizadas trimestralmente.
Warsh, que foi membro do Conselho de Governadores do Fed entre 2006 e 2011, quer que o banco reverta algumas dessas mudanças para que as autoridades enviem menos sinais sobre as perspectivas. Ele testou essa abordagem na primeira reunião como presidente. Na semana passada, o Fed optou por manter as taxas de juros, apesar do crescente apoio interno para custos de empréstimos mais altos este ano para conter a inflação.
O comunicado do banco sobre a decisão, mais enxuto que o normal, foi elogiado pela concisão e simplicidade. Mas a decisão de Warsh de evitar quaisquer perguntas relacionadas ao seu pensamento sobre o cenário econômico e como o Fed deveria responder se as circunstâncias mudassem gerou algumas dúvidas.
Warsh assumiu a presidência em meio a preocupações sobre quão independentemente ele operaria de Trump, que há muito tempo pede que o Fed reduza as taxas. Warsh deixou claro que a tarefa mais importante do banco central seria controlar a inflação. Mas para Michael Feroli, economista-chefe para os EUA do JPMorgan, que foi economista do Fed durante o mandato de Greenspan, essa independência teria sido muito mais garantida se Warsh explicasse o processo de tomada de decisão.
“Eu poderia acreditar muito mais na independência se ele me dissesse: ‘Estes são os argumentos, os prós e os contras'”, disse Feroli.
Folha Mercado
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‘O MAIOR AJUSTADOR FINO DA HISTÓRIA’
Greenspan, que dirigia uma pequena empresa de consultoria econômica antes de ir para o Fed, era conhecido pela fé em indicadores incomuns que, para ele, poderiam fornecer sinais sobre a direção da economia antes de medidas mais conhecidas, como a taxa de desemprego e o PIB.
Ele acompanhava o preço de sucata metálica como um sinal antecipado da produção industrial e as vendas de cuecas masculinas como janela para o sentimento do consumidor. Durante tempos econômicos difíceis, os homens tentariam usar mais algumas vezes suas cuecas velhas antes de substituí-las, teorizava Greenspan.
“Ele era magistral em suas inclinações para tentar encontrar melhores maneiras de medir o que estava acontecendo”, disse Peter Hooper, que foi economista no Fed sob Greenspan e agora lidera pesquisas no Deutsche Bank. “Ele tinha simplesmente um talento para perceber para qual direção a economia estava pendendo em um momento em que algumas das séries macroeconômicas apontavam em uma direção diferente.”
Talvez o exemplo mais notável da confiança de Greenspan em seus instintos tenha ocorrido no final dos anos 1990, quando o crescimento acelerou e a taxa de desemprego caiu. Tais condições normalmente levariam o Fed a aumentar as taxas de juros para tentar evitar uma explosão de inflação.
Greenspan, no entanto, argumentou que a tecnologia de computação estava causando um boom de produtividade, permitindo que a economia crescesse mais rapidamente sem causar aumento de preços. Ele resistiu a aumentar as taxas até perto do final da década. Os dados de produtividade eventualmente confirmaram seus instintos.
“A inovação de Greenspan não foi olhar para mais dados; foi olhar para os dados certos —encontrar inconsistências no que via e trabalhar para resolvê-las”, lembrou Mary C. Daly, presidente do Federal Reserve Bank de San Francisco, em fevereiro. Seu sucesso, ela acrescentou, resultou da “disposição para ouvir as empresas, conhecer suas ideias, usar dados e evidências para testá-las e convidar outros a fazer o mesmo”.
Alan Blinder, que foi vice-presidente de Greenspan entre 1994 e 1996, o chamou de “o maior ajustador fino da história”. “Greenspan será, justamente, lembrado por sua condução especializada e bem-sucedida da política monetária por 18 anos, especialmente no final dos anos 90, quando ele viu os ganhos de produtividade antes dos outros”, disse Blinder.
LIÇÃO PARA O BOOM DA IA
Warsh argumentou que a abordagem de Greenspan nos anos 90 traz lições para a formulação de políticas atualmente. Ele disse que a IA, assim como o computador pessoal na era de Greenspan, permitirá um crescimento mais rápido e que, como resultado, o Fed poderá manter as taxas de juros mais baixas sem permitir que a inflação saia de controle.
Muitos economistas, incluindo alguns dentro do Fed, questionam esses paralelos. Eles argumentam que a onda de investimentos em IA pode estar elevando a inflação no curto prazo, mesmo que a tecnologia leve a um crescimento mais rápido da produtividade ao longo do tempo. E apontam diferenças entre a era de Greenspan e hoje, observando que a globalização e outras forças estavam empurrando a inflação para baixo nos anos 90.
Alguns economistas também temem que o boom da IA possa se assemelhar mais a um episódio diferente do mandato de Greenspan: a bolha das empresas pontocom.
Greenspan alertou sobre a “exuberância irracional” no mercado de ações em um discurso de 1996 no American Enterprise Institute. Os investidores continuaram a investir em empresas de internet não lucrativas por mais três anos antes que a bolha estourasse, fazendo as ações despencarem e ajudando a causar uma recessão.
A bolha imobiliária da década seguinte foi ainda mais prejudicial, desencadeando uma crise financeira global e causando a pior recessão desde a Grande Depressão. Essa crise ocorreu depois que Greenspan deixou o Fed, mas críticos, e até alguns apoiadores, há muito argumentam que sua fé nos mercados e seu ceticismo em relação à regulamentação governamental permitiram que os riscos no sistema financeiro crescessem sem controle por tempo demais.
“Seu ponto fraco, infelizmente, foi a regulação e supervisão bancária, onde sua profunda crença no laissez-faire o levou a ignorar problemas que estavam se acumulando no sistema financeiro nos anos anteriores à crise financeira de 2007-2009”, disse Blinder. “Isso deixou uma grande mancha em um histórico estelar.”
noticia por : UOL






