Ideia de que 'a ciência vai consertar' se torna desculpa para ignorar danos, diz cientista

“Não se preocupe, a ciência vai consertar”. Esse é um dos pensamentos ligado à ciência criticados pelo astrofísico americano Adam Frank, autor do livro “Ponto Cego – Por que a ciência não pode ignorar a experiência humana“. Esse tipo de ideia, diz o cientista, se torna uma desculpa para ignorar os danos que estamos causando ao planeta Terra.

Frank escreveu o livro em questão junto ao físico teórico brasileiro Marcelo Gleiser e ao filósofo americano Evan Thompson.

“A atitude triunfalista é um problema filosófico, mas, quando associada ao poder político e econômico, torna-se uma justificativa para comportamentos imprudentes. É aí que vemos danos reais sendo causados sob a bandeira do ‘progresso'”, diz Frank.

Por ocasião do lançamento de “Ponto Cego”, Frank conversou com a Folha e contou um pouco do processo de escrita e das motivações e preocupações dos autores.

O que uniu vocês para escrever este livro? Foi difícil reunir um físico, um astrofísico e um filósofo e torná-lo uma obra coesa?

O que nos uniu foi, na verdade, um senso compartilhado de urgência. Marcelo, Evan e eu estávamos circulando em torno do mesmo problema, vindos de direções diferentes: a maneira como a ciência frequentemente se esquece de levar em conta o fato de ser uma atividade humana, baseada na experiência humana. Essa omissão –o que chamamos de ponto cego– leva a distorções na forma como a ciência é entendida pela sociedade.

Tive uma sensação estranha ao ler o livro. As três primeiras partes pareciam uma crítica à ciência, baseada no ponto cego. Mas, no final, comecei a sentir que vocês estão realmente esperançosos quanto às nossas perspectivas e acham que estamos achando uma saída do ponto cego, mesmo que com um preço brutal por nosso despertar tardio.

Sim, sua opinião está correta. As primeiras partes do livro são críticas porque precisam ser –se você não apontar o problema, não poderá ir além dele. Mas as últimas seções são onde tentamos abrir uma porta. A ciência, apesar de todos os seus pontos cegos, ainda é uma das conquistas mais extraordinárias da humanidade. A esperança vem do fato de que a própria ciência pode evoluir. Ao nos tornarmos mais reflexivos —ao reconhecermos o papel da experiência humana— podemos redirecionar seu enorme poder para relacionamentos mais saudáveis entre nós e com o planeta.

Então, sim, estamos cautelosamente esperançosos. Vemos a ciência já começando a se adaptar –veja a ecologia, a ciência climática ou os estudos da consciência. O preço de esperar tanto para reconhecer o ponto cego é real e doloroso, mas isso não significa que não haja um caminho a seguir.

Vocês criticam uma visão triunfalista da ciência. Eu me pergunto qual é o verdadeiro problema: o triunfalismo ou a instrumentalização do triunfalismo? Estou muito preocupado com essa segunda questão (ou seja, a ideia de que não precisamos nos preocupar com o que estamos fazendo com a Terra porque descobriremos maneiras artificiais de corrigir tudo), mas vocês não falaram muito sobre isso nem sequer fizeram a distinção entre o triunfo da ciência e seu mau uso.

Essa é uma ótima distinção. Um dos focos do livro era contra essa postura triunfalista —a suposição irrefletida de que a ciência pode, em princípio, responder todas as perguntas e deve ser vista como a única árbitra da verdade.

Mas você está absolutamente certo de que existe um segundo perigo: o uso do triunfalismo como uma espécie de licença cultural para atropelar problemas. “Não se preocupe, a ciência vai consertar” se torna uma desculpa para ignorar os danos que estamos causando agora. A atitude triunfalista é um problema filosófico, mas, quando associada ao poder político e econômico, torna-se uma justificativa para comportamentos imprudentes. É aí que vemos danos reais sendo causados sob a bandeira do “progresso”.

Por outro lado, temos os limites da ciência, e isso, creio, vocês apresentaram com muita clareza e riqueza de detalhes. Há coisas que, mesmo em princípio, a ciência não consegue explorar completamente, e faz parte do ponto cego não perceber isso. Mas, tendo aceitado isso, existe realmente um problema? Não podemos simplesmente aceitar que existem coisas que vão além da nossa capacidade de raciocínio e seguir em frente?

Eu colocaria desta forma: reconhecer limites não diminui a ciência —apenas a esclarece. De fato, existem questões que estão além do que a ciência pode resolver: questões de significado, valor ou origens últimas. Mas reconhecer isso não significa desistir. Em vez disso, significa reconhecer que a ciência opera em um contexto humano mais amplo.

Precisamos de uma “nova ciência”? Não no sentido de descartar o que funciona. O que precisamos é de uma ciência com uma nova visão da natureza. Também precisamos de uma ciência que saiba quando se “autodestruir” —com isso, quero dizer uma ciência que saiba que um método é apenas um método e que sua utilidade tem limites.

Conviver com o ponto cego significa reconhecê-lo, apontá-lo e, então, recusar-se a deixá-lo distorcer silenciosamente nossos julgamentos. Essa mudança por si só já seria transformadora.

Toda essa discussão e o livro são prova de que a ciência, pelo menos em algumas áreas, não pode mais fingir que suas conexões com a filosofia podem ser simplesmente ignoradas na prática cotidiana?

Sim, exatamente. Uma das mensagens centrais do livro é que a ciência não pode mais se isolar da filosofia. Na verdade, nunca pôde. Todo projeto científico está sempre apoiado em uma base filosófica, independentemente de os praticantes admitirem ou não. O que está mudando agora é que os riscos são maiores. Mudanças climáticas, biotecnologia, IA —tudo isso nos força a confrontar não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer. Não é possível sequer formular essas questões sem a filosofia. Portanto, parte do nosso apelo é para que os cientistas reconheçam a filosofia não como um complemento opcional, mas como uma parceira essencial no trabalho.


Adam Frank, 63

Professor no Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Rochester e vencedor da Medalha Carl Sagan

noticia por : UOL

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