“Nunca viaje sem seu diário. Devemos sempre ter algo sensacional para ler no trem”, diz uma frase frequentemente atribuída a Oscar Wilde, escritor que transformou a própria imagem em parte de sua obra e ajudou a definir o dandismo literário do fim do século 19. Se estivesse vivo hoje, talvez acrescentasse uma observação: certifique-se de que alguém veja a capa.
Se com o “book stylist” —o misterioso curador que põe livros nas mãos de celebridades e modelos quando esses são fotografados—, livros passaram a ser utilizados como sinalizadores de repertório poético, agora a moda e o estilo mais uma vez se interseccionam com eles. O estilista de livros, aparentemente, antecipou algo mais amplo.
Isso tem se manifestado com força nas passarelas. Em janeiro, na Semana de Moda de Paris, Yohji Yamamoto exibiu casacos negros amplos e camadas desalinhadas que remetiam a uma figura intelectual quase monástica. Na mesma temporada, a Lemaire mostrou sobretudos fluidos, cachecóis longos e bolsas de couro carregadas junto ao corpo, evocando a imagem do escritor em deslocamento.
Esta é a “poet core”, ou “book core”, conforme apelidaram a crítica especializada e as mídias sociais, para descrever uma estética inspirada no escritor e no leitor que temos em nosso imaginário. Tricôs amplos, alfaiataria relaxada, tecidos como lã, tweed, veludo e algodão encorpado e uma aparência que sugere introspecção têm servido de resposta ao nosso cotidiano apressado e encharcado por imagens.
Trata-se do mais recente desdobramento de um fenômeno cada vez mais visível. A Dior, por exemplo, tem transformado a literatura em matéria-prima para a construção de seus desfiles. Em 2025, a grife recorreu a “Orlando”, romance de Virginia Woolf publicado em 1928, para construir uma coleção assinada por Maria Grazia Chiuri marcada por reflexões sobre identidade, tempo e transformação.
No mesmo ano, já sob a direção criativa de Jonathan Anderson na linha masculina, a marca apresentou bolsas inspiradas em capas de livros clássicos, incluindo uma reprodução da primeira edição de “Drácula”, de Bram Stoker, além de versões dedicadas a “Ulysses”, de James Joyce, “A Sangue Frio”, de Truman Capote, “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire, e “Ligações Perigosas”, de Pierre Choderlos de Laclos.
A ascensão da “poet core” coincide com outras iniciativas que recolocam a literatura no centro da cultura visual. Em abril, o Miu Miu Literary Club, vinculado à grife de Miuccia Prada, realizou sua edição mais recente em Milão, reunindo escritoras, artistas e intelectuais em torno da leitura de obras de Simone de Beauvoir e Fumiko Enchi. A atriz Sarah Jessica Parker, estrela de “Sex and the City”, integrou o júri do Booker Prize de 2025 e, dois anos antes, firmou parceria com a Zando para ter seu próprio selo na editora, assim cruzando suas paixões por moda e literatura. Reese Witherspoon fez de seu clube do livro uma engrenagem que impulsiona vendas e adaptações audiovisuais.
A pop star Dua Lipa, espectadora assídua de desfiles e rosto de campanhas de Chanel, Versace e Bulgari, entrevista autores —como Olga Tokarczuk, Ocean Vuong e Margaret Atwood— e divulga leituras por meio do clube do livro da sua plataforma de conteúdo Service95. Dakota Johnson também tem sua própria comunidade de leitores.
“Objetos culturais sempre foram marcadores de identidade e status”, diz Ana Carolina Pereira de Souza, coordenadora do curso de tecnologia em design de moda do Senac. Segundo ela, o livro ocupa uma posição particularmente poderosa porque comunica conhecimento, sensibilidade, autenticidade e capital cultural.
A pesquisadora observa ainda que o interesse recente pela literatura aparece em tendências ligadas a decoração, autocuidado e produção de conteúdo digital. “Quando uma tendência se expande para múltiplas esferas da vida cotidiana, ela deixa de ser apenas uma moda passageira e passa a expressar uma mudança mais profunda de imaginário social”, afirma.
A leitura da especialista ajuda a explicar por que bibliotecas, livrarias independentes, cafés e mesas de estudo passaram a ocupar lugar central na iconografia das redes sociais. O livro não aparece apenas como algo a ser lido. Ele ajuda a compor uma narrativa sobre quem somos ou gostaríamos de ser.
Para o pesquisador de moda Álamo Bandeira, da Universidade Federal de Pernambuco, a valorização recente da figura do leitor também revela uma mudança nos códigos de distinção social. Se em outros momentos o consumo de luxo dependia sobretudo da exibição de bens materiais, hoje o repertório cultural passou a funcionar como uma forma de prestígio. “A moda sempre operou por mecanismos de diferenciação. O que muda são os códigos. Em um cenário de hiperconsumo e excesso de informação, demonstrar familiaridade com livros, arte e conhecimento passa a ser uma forma de sinalizar pertencimento e sofisticação”, afirma.
André Alves, psicanalista, escritor e pesquisador de comportamento e consumo, afirma que o processo está ligado à crescente importância do chamado capital cultural. Em um ambiente digital no qual conexões sociais, curtidas e seguidores se tornaram abundantes, repertório e gosto adquiriram novo valor.
“O livro é uma forma de sinalizar que eu trabalho meu repertório pessoal”, diz. Alves observa que a leitura ocupa uma posição ambígua: continua sendo uma experiência íntima, mas também se tornou matéria-prima para exibição pública. “A implosão da privacidade que experimentamos com a ascensão das mídias sociais joga o nosso gosto na roda.”
Isso não significa necessariamente superficialidade. Para ele, existe algo genuíno na busca contemporânea por atividades que exijam concentração e outro ritmo de atenção. Na era do “scrolling” infinito, a leitura surge como experiência associada à desaceleração e ao foco. Ao mesmo tempo, exibir livros pode funcionar como demonstração de disciplina, conhecimento ou sofisticação.
A especialista em marketing editorial, Dany Sakugawa, argumenta que essa dimensão simbólica sempre existiu. Grandes bibliotecas particulares já funcionavam como símbolos de status muito antes das redes sociais. O que mudou foi a escala. “Se sempre dissemos que você é o que você come, não deveria surpreender que as pessoas também sejam, ou queiram parecer ser, o que leem”, afirma.
Segundo ela, as redes ampliaram a força da recomendação pessoal e transformaram leitores, autores e celebridades em curadores. O mercado editorial também passou a considerar com mais atenção o potencial visual dos livros. Edições especiais, acabamentos sofisticados, bordas coloridas e kits enviados a influenciadores refletem um cenário em que o objeto precisa funcionar tanto na estante quanto no feed.
A relação entre literatura e imagem pública tampouco é uma invenção do século 21. Em 1966, Truman Capote reuniu socialites, artistas, milionários e estrelas do cinema em Nova York para o que ficaria conhecido como “Black and White Ball”, em homenagem a Katharine Graham, então publisher do jornal The Washington Post. Décadas antes, Oscar Wilde já compreendia o valor simbólico da própria aparência. Tom Wolfe transformaria o terno branco em assinatura pessoal. Escritores sempre exerceram influência estética sobre a cultura.
Álamo Bandeira afirma que o livro opera de maneira diferente de outros símbolos de status porque exige repertório compartilhado para produzir distinção. “A tradicional elite capaz de reconhecer cada livro substitui a logomarca que geralmente vem impressa nas bolsas desejadas pelos ricos emergentes”, afirma.
Talvez Oscar Wilde reconhecesse a cena. O livro ainda serve para ser lido, mas em algum momento tornou-se também um acessório. A diferença desta vez é que o luxo não está apenas em tê-lo. Está em encontrar tempo para terminá-lo.
noticia por : UOL






