Eventos globais de branqueamento de corais seriam impossíveis sem a mudança climática causada pelas emissões de gases de efeito estufa de atividades humanas. A conclusão é de um novo estudo, conduzido por pesquisadores do grupo Climate Central e publicado nesta quinta-feira (23) na revista Oceanography.
Contrariando o que se acreditava, os cientistas concluíram que a ocorrência do El Niño não é o suficiente para causar branqueamento em massa em âmbito mundial —o que ocorreu quatro vezes na história humana, todas nas últimas três décadas: 1998, 2010, 2014-2017 e 2018-2025.
Durante o evento mais recente, a análise indica que não teria ocorrido quase nenhum branqueamento, mesmo localmente, sem o aquecimento global. Das 71 regiões onde o fenômeno foi observado no período, apenas 1 teria apresentado risco moderado de branqueamento em um mundo sem mudanças climáticas.
O último evento global atingiu fortemente o Caribe, a América Central e a América do Sul. Os corais brasileiros foram fortemente atingidos.
“Além disso, todos os eventos anteriores, incluindo o original de 1998, tinham as marcas das mudanças climáticas de origem humana”, diz o artigo.
“Nosso estudo mostra que, sem as mudanças climáticas, o branqueamento de corais seria um evento raro e isolado, e o branqueamento em massa em escala global simplesmente não ocorreria”, afirma Andrew Pershing, diretor no Climate Central e autor principal do estudo.
Atribuição climática
Todos os eventos globais de branqueamento coincidiram, parcial ou integralmente, com períodos de El Niño (caracterizado pelo aquecimento sazonal das águas superficiais do Pacífico equatorial), o que dificulta isolar a influência da mudança climática —provocada principalmente pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento.
Para chegar ao resultado encontrado, os pesquisadores usaram modelos de atribuição climática, como é conhecido o campo de estudos que determina a influência da crise do clima sobre eventos climáticos extremos e suas consequências.
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Foram comparadas duas versões do oceano: a real, com o atual aquecimento de 1,35°C causado pela humanidade, e uma versão simulada, que imita a temperatura do planeta antes da Revolução Industrial e estima como a situação seria sem as emissões de gases-estufa.
Porém, como ao longo do seu processo evolutivo os corais se adaptaram às condições dos diferentes pontos do oceano que habitam, não bastava usar um dado absoluto de temperatura para analisar o branqueamento.
Então, as duas versões do clima foram analisadas a partir do indicador oficial da Noaa, agência dos Estados Unidos para clima e oceano, para prever o branqueamento de corais. O método analisa o aquecimento marinho acima da máxima média histórica e de forma prolongada, em recortes de 12 semanas. O cálculo foi aplicado a cem regiões de recifes de coral ao redor do mundo, entre 1982 e 2025.
Um segundo modelo estatístico comparou, região por região, o peso relativo do aquecimento global e da variação de temperatura causada pelo El Niño no risco de branqueamento.
“De acordo com nossa análise, grandes eventos de El Niño agravam o risco decorrente do aquecimento de longo prazo, mas as variações de temperatura causadas pelo El Niño não seriam, isoladamente, intensas o suficiente para provocar um branqueamento generalizado”, afirmam os autores.
Avanço do aquecimento do oceano
Os pesquisadores também destacam a tendência de aumento no número de regiões sob risco de branqueamento desde os anos 1980. “Isso sugere que agora muitas regiões estão enfrentando temperaturas estressantes várias vezes a cada década”, escrevem.
Em 2023, devido aos recordes de calor registrados nos mares ao redor do planeta, a Noaa chegou a atualizar a escala usada para medir o risco aos corais. Até então, o máximo nível de alerta era o 2 (caracterizado por branqueamento severo e provável mortalidade significativa). Agora, a metodologia chega até o alerta nível 5, em que há risco de mortalidade quase completa dos recifes de corais.
“Acredito que as pessoas subestimam o valor de recifes saudáveis. Eles são lar de um enorme número de espécies, fornecem alimento para muitas comunidades, geram renda com o turismo e ajudam a proteger as costas contra tempestades”, diz Pershing. “Milhões de pessoas e países inteiros dependem de recifes de corais saudáveis para seus meios de subsistência e segurança alimentar.”
Em junho, os oceanos bateram o recorde de calor para o mês. O pesquisador afirma que “quase certamente” estamos diante de outro evento global de branqueamento, diante do cenário atual do aquecimento global somado ao El Niño.
A cor dos corais vem de microalgas coloridas (zooxantelas) que vivem nos seus tecidos. Águas quentes demais por tempo demais fazem com que elas produzam uma substância tóxica ao coral, que as expulsa, deixando exposto o seu esqueleto calcário. Um coral branqueado não está morto —mas está fraco e sujeito a doenças.
Pershing explica que ações locais como reduzir a poluição da água e acabar com a pesca predatória são importantes, porque ajudam a preservar bolsões de recifes saudáveis, que permitem a reconstrução a curto e longo prazo
“No entanto, a pressão sobre os recifes causada pelas mudanças climáticas está crescendo e continuará a crescer até que a poluição por carbono seja interrompida”, alerta. “Sem uma redução imediata das emissões, os recifes de corais como os conhecemos desaparecerão.”
noticia por : UOL









