Ou seja, ordenou ao Brasil e ao mundo um “faça o que digo, não faça o que eu faço”.
Quem acompanha esta coluna sabe que há 27 anos investigo trabalho escravo contemporâneo. E sim, o Brasil usa esse tipo de mão de obra em uma série de setores, mas também é exemplo reconhecido pela ONU no combate à prática, apesar dos muitos problemas. Barreiras comerciais não funcionam; pelo contrário, sacaneiam a maioria dos produtores que operam dentro da lei ao colocá-los no mesmo nível dos criminosos.
O Brasil é o único país que tem uma “lista suja” do trabalho escravo mantida pelo governo, apontando os responsabilizados por esse crime. Empresas ao redor do mundo já checam a lista antes de importar de nós e bancos brasileiros a usam antes de conceder empréstimos, fazendo gerenciamento de risco caso a caso. Considerando que empresas nos EUA checam a lista, a ação era desnecessária em termos de defesa da dignidade humana, sendo apenas uma desculpinha esfarrapada para a imposição de novas tarifas, uma vez que Trump viu as anteriores serem derrubadas pela Suprema Corte em março.
Já os EUA, que se beneficiam de trabalho escravo em seu território e nas cadeias produtivas de suas empresas fora dele, não contam com mecanismos sólidos e eficazes como a lista suja para garantir que suas mercadorias estejam limpas. E, para piorar, como venho dizendo aqui, o país é contra a assinatura de tratados que criem obrigações para empresas agirem dentro da linha, o que seria uma solução estrutural para o problema.
Apesar de tudo isso, há grupos políticos que, vergonhosamente, estendem a bandeira dos EUA em celebrações do 7 de Setembro ou se enrolam com ela feito uma panqueca com recheio de traição. Pior: cujos líderes visitam a Casa Branca pedindo sanções ao Brasil para ajudar o sonho de Jair Bolsonaro. E depois ainda se dizem patriotas.
Trump deve rir muito desse povo, pois também estão nus e untados no óleo de peroba. Só que, ao contrário dele, não sabem disso.
noticia por : UOL









