Selic: por que o Banco Central pode parar de cortar juros após a reeleição de Lula?

Copom reduz taxa de juros, e o FED mantém
Jornal Nacional/ Reprodução
O Banco Central chega à reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (4) diante de um cenário mais complicado para decidir o futuro da taxa básica de juros, a Selic. A expectativa predominante entre economistas é de que o BC interrompa o ciclo de cortes e mantenha a Selic em 13,75% ao ano.
Embora a deterioração das expectativas de inflação e a incerteza sobre a condução das contas públicas tenham reduzido o espaço para novos cortes, parte dos analistas ainda considera possível uma última redução de 0,25 ponto percentual, levando os juros a 13,50% ao ano.
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O comunicado do Banco Central também será acompanhado de perto pelos investidores em busca de pistas sobre a trajetória dos juros em 2027, especialmente diante das dúvidas sobre a política fiscal do próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A reação do mercado financeiro ao resultado do segundo turno das eleições deu uma dimensão dessas preocupações. O Ibovespa, principal índice da B3, encerrou a semana de 30 de outubro com queda de 18,12%, a quinta maior desvalorização semanal desde o início do Plano Real.
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Além disso, as empresas listadas perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado na mesma semana, segundo levantamento da Elos Ayta. Para dimensionar a magnitude dessa perda, o montante equivale a 1,31 vez o valor de mercado da Petrobras, atualmente estimado em R$ 734 bilhões.
➡️ A preocupação é que, sem uma mudança na condução das contas públicas, o país continue convivendo com juros elevados, o que dificulta investimentos, encarece o crédito e limita o crescimento econômico.
“Esperamos manutenção da taxa Selic em 13,75% na reunião de novembro. A decisão deve ser unânime e refletir a avaliação de piora do cenário-base”, afirma o Itaú BBA em relatório.
Na avaliação do banco, o ambiente internacional também se tornou mais desfavorável, com juros elevados nas economias desenvolvidas e nova rodada de alta nos preços do petróleo. No Brasil, embora a atividade econômica esteja desacelerando, o mercado de trabalho continua resistente e a inflação permanece pressionada.
O Itaú BBA estima que a projeção de inflação do próprio modelo do Banco Central para o segundo trimestre de 2028, período considerado relevante para a decisão de juros, suba de 3,2% para 3,4%. O banco também revisou suas projeções para o IPCA, inflação oficial do país: de 5,1% para 5,2% em 2026 e de 4,6% para 6,1% em 2027.
Com esse quadro, a instituição espera que o Copom interrompa o ciclo de redução dos juros e mantenha a Selic em 13,75% durante todo o próximo ano. O enfraquecimento da economia, por outro lado, seria um dos fatores que limitariam a necessidade de elevar ainda mais a taxa.
Por que o mercado voltou a temer juros mais altos?
Um dos principais fatores por trás da turbulência é a situação das contas públicas. Nos 12 meses até setembro, o setor público acumulou déficit nominal de R$ 1,28 trilhão. Esse indicador considera a diferença entre receitas e despesas do governo, incluindo os juros pagos sobre a dívida pública.
A dívida bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, o equivalente a R$ 11,1 trilhões. Em dezembro de 2022, a proporção era de 71,7% do PIB.
O tamanho da dívida preocupa porque, quanto maior a percepção de risco de que o governo terá dificuldades para pagar seus compromissos, maior é a remuneração exigida pelos investidores para emprestar dinheiro ao país. Essa cobrança adicional eleva os juros dos títulos públicos, especialmente daqueles com vencimentos mais longos, e pode pressionar o dólar.
O problema é que o aumento dos juros também encarece o próprio financiamento da dívida, criando um ciclo difícil de interromper.
“Com dívida alta e crescente, o investidor passa a exigir mais para emprestar ao governo, e os juros longos sobem. Juro mais alto aumenta a dívida, e a dívida maior exige juro mais alto. É esse ciclo que o mercado teme”, explica Juliana Daitx, coordenadora de Investimentos da Unicred Porto Alegre.
Ela destaca que, nos 12 meses até setembro, os juros pagos pelo setor público chegaram a R$ 1,205 trilhão, enquanto o déficit primário foi de R$ 70,1 bilhões. Para recuperar a confiança dos investidores, o governo precisaria apresentar um plano fiscal com metas claras e medidas permanentes de controle das despesas.
A avaliação dos especialistas é que não basta aumentar a arrecadação ou apresentar resultados positivos isolados: é necessário mostrar que a dívida poderá se estabilizar nos próximos anos.
O resultado de setembro, por exemplo, não foi suficiente para mudar essa percepção. Naquele mês, o Governo Central registrou superávit primário de R$ 4,84 bilhões, ante déficit de R$ 14,4 bilhões em setembro de 2025. Mas parte significativa da melhora veio de um fator extraordinário: o cancelamento de R$ 12,8 bilhões em precatórios de exercícios anteriores, dívidas do governo reconhecidas pela Justiça.
Sem esse efeito, o resultado teria sido negativo em aproximadamente R$ 8 bilhões.
“O resultado de setembro foi eminentemente puxado por fatores não recorrentes e nos dá muito pouca sinalização sobre a estratégia fiscal de longo prazo”, afirma Gustavo Gomes, chefe de renda variável da AVIN.
Na avaliação dele, o mercado procura sinais de que o próximo governo terá condições de controlar o crescimento das despesas obrigatórias, que aumentam automaticamente conforme regras previstas em lei, e reduzir a dependência de receitas extraordinárias.
André Braz, economista do FGV IBRE, também avalia que a melhora pontual das contas públicas não é suficiente. Para ele, o desafio é produzir um ajuste permanente, com maior eficiência do gasto público, revisão de despesas obrigatórias e benefícios tributários e cumprimento das metas fiscais.
“O mercado precisa enxergar uma trajetória consistente de controle das despesas e estabilização da dívida pública”, afirma.
O que a queda da bolsa e a alta do dólar têm a ver com a Selic?
Quando cresce a percepção de risco sobre a economia brasileira, investidores podem retirar recursos do país e buscar proteção em moedas estrangeiras, como o dólar. Com isso, o real perde valor.
Como parte dos produtos consumidos no Brasil depende de insumos ou mercadorias importados, um dólar mais caro pode pressionar os preços e dificultar o controle da inflação.
Além disso, os juros futuros sobem. Essas taxas são negociadas no mercado e indicam quanto os investidores esperam receber para emprestar dinheiro em diferentes prazos.
Gustavo Gomes afirma que, na reação pós-eleitoral, alguns vencimentos intermediários e longos dos juros futuros apresentaram abertura próxima de 250 pontos-base, ou 2,5 pontos percentuais. O movimento indica que os investidores passaram a exigir uma remuneração maior para assumir riscos relacionados à economia brasileira.
A inflação implícita, indicador calculado a partir da diferença entre as taxas de juros nominais e reais dos títulos públicos, também subiu. No horizonte de cinco anos, a alta foi de aproximadamente 1,2 ponto percentual na semana, levando o indicador a patamares próximos de 7% ao ano.
Para o Banco Central, as expectativas de inflação mais altas podem se transformar em aumentos efetivos de preços. Se empresas e trabalhadores passam a esperar uma inflação maior, podem reajustar preços e salários levando essa perspectiva em consideração.
Por isso, mesmo que a atividade econômica esteja perdendo força, o BC precisa avaliar se uma redução dos juros não acabaria pressionando ainda mais o câmbio e a inflação.
“Uma redução prematura dos juros poderia pressionar o câmbio e dificultar a convergência da inflação para a meta”, afirma André Braz, economista do FGV IBRE.
Crédito caro começa a pesar sobre famílias e empresas
Enquanto o mercado discute a dívida pública e as expectativas para a inflação, os efeitos dos juros elevados já aparecem na vida de consumidores e empresas.
O último Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central mostrou que o sistema bancário brasileiro continua sólido, com níveis adequados de capital e liquidez. Isso significa que as instituições financeiras têm recursos e reservas para enfrentar perdas e períodos de maior dificuldade.
O problema está na capacidade de pagamento dos clientes. O comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu o maior nível em 21 anos, enquanto os indicadores de inadimplência e de operações problemáticas também avançaram.
Com mais consumidores e empresas enfrentando dificuldades para pagar empréstimos, os bancos precisam reservar mais dinheiro para cobrir possíveis calotes. Ao mesmo tempo, ficam mais rigorosos na concessão de novos financiamentos e elevam as taxas cobradas para compensar o risco.
O resultado é um crédito mais caro e difícil de conseguir justamente quando famílias e empresas precisam de recursos para reorganizar suas dívidas e manter o consumo e os investimentos.
“O relatório mostra que os bancos estão sólidos, mas os clientes estão em dificuldade”, resume Juliana Daitx, da Unicred Porto Alegre.
Ela explica que a inadimplência pode alimentar um ciclo negativo: os bancos emprestam menos e cobram mais caro, o que dificulta ainda mais o pagamento das dívidas e pode provocar novos atrasos.
Uma redução da Selic ajudaria a aliviar esse quadro, tornando gradualmente mais baratas as dívidas e as novas operações de crédito. Mas o efeito não seria imediato e dependeria também da disposição dos bancos para voltar a emprestar.
Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, explica que muitas famílias já estão com uma parcela tão grande da renda comprometida que uma redução dos juros pode não ser suficiente para estimular imediatamente novas operações de crédito.
Por que um último corte ainda não está descartado?
Apesar da predominância da expectativa de manutenção, há analistas que enxergam espaço para uma redução residual dos juros.
Jeferson Bittencourt, chefe de macroeconomia do ASA, avalia que a desaceleração da atividade econômica e uma projeção de inflação ainda próxima da meta no horizonte relevante podem justificar um último corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 13,50%.
Para ele, a decisão ficou mais apertada depois da depreciação do real e do aumento dos prêmios de risco, que representam a remuneração adicional exigida pelos investidores para assumir riscos maiores.
“Deve pesar mais a combinação de atividade em desaceleração com projeção de inflação ainda próxima da meta no horizonte relevante. Esse quadro sustenta uma probabilidade um pouco maior de um último corte de 0,25 ponto percentual”, afirma.
O economista ressalta, porém, que a possibilidade de manutenção dos juros aumentou de forma relevante. Caso o Copom opte pelo corte, a expectativa é de que o comunicado já indique uma postura mais cautelosa, reconhecendo que a piora das condições financeiras reduziu o espaço para novas reduções.
Na avaliação de Juliana Daitx, a manutenção em 13,75% é a escolha mais prudente. Antes das eleições, o mercado esperava uma redução para 13,50% na reunião de novembro. A disparada do dólar, a inflação acima do teto da meta e a falta de clareza sobre a condução fiscal do próximo governo, entretanto, mudaram esse cenário.
“Subir também parece exagero, porque a inadimplência já está alta e a atividade dá sinais de desaceleração. Por isso, o mais sensato é manter em 13,75% ao ano e esperar mais clareza”, diz.
A avaliação é semelhante à de Alexandre Pletes, sócio e chefe de renda variável da Faz Capital. Para ele, uma redução dos juros dependerá de uma melhora mais consistente das expectativas de inflação e da percepção sobre o risco fiscal.
“Não adianta cortar juro sem ter isso funcionando”, afirma.
O que observar no comunicado do Copom?
Para André Braz, do FGV IBRE, o comunicado deve deixar claro se o Banco Central pretende apenas interromper temporariamente o ciclo de cortes ou se ainda considera possível retomar a redução dos juros nas próximas reuniões.
Sérgio Samuel, economista do Ailos, espera um tom de compromisso com o controle da inflação e a manutenção da cautela. Segundo ele, a credibilidade do BC depende de uma atuação técnica, mas a retomada dos cortes também exigirá que as expectativas de mercado estejam mais bem ancoradas.
Juliana Daitx, da Unicred, destaca que uma referência mais explícita ao câmbio, às expectativas de inflação e ao risco fiscal seria um sinal de que os juros podem permanecer elevados por mais tempo.
Um comunicado mais neutro, acompanhado de uma eventual acomodação do dólar, poderia deixar aberta a possibilidade de novos cortes.




