Sueco de origem tunisiana não comemora gol na Copa: uma cena cada vez mais comum?

Na estreia da Suécia na Copa do Mundo, o meia Yasin Ayari abriu o placar contra a Tunísia aos sete minutos. Mas não comemorou. Em vez de correr em direção ao público ou festejar com os companheiros, ele se limitou a fazer uma espécie de sinal de desculpas com as mãos.

A cena, que viralizou desde a tarde de domingo (14), pareceu contraditória para a imprensa e a torcida suecas. Afinal, Ayari — filho de pai tunisiano e mãe marroquina — já havia resolvido essa questão anos antes. Nascido e formado para o futebol na Suécia, o jogador chegou a recusar duas vezes a possibilidade de defender a Tunísia.

“Foi um jogo emocionante para mim, porque a Tunísia também é meu país”, disse o atleta do Brighton, da Inglaterra, após a partida que terminou em 5 a 1 para os suecos em Monterrey, no México. Segundo ele, a contenção na hora da comemoração foi um sinal de respeito ao país de seu pai.

No entanto, os memes não mostraram que o meia se esbaldou depois de fazer o seu segundo gol na partida (inclusive deslizando de joelhos pelo gramado). Nas redes sociais, alguns torcedores apontaram uma incoerência: por que o respeito à Tunísia valia no primeiro gol, mas não no segundo? “O Yasin não podia pedir desculpas todas as vezes”, explicou Taha Ayari, irmão do atleta, para a imprensa local.

Essa aparente inconsistência acabou transformando o gesto numa discussão sobre o conceito de identidade nacional — e com múltiplas interpretações.

Para muitos suecos, especialmente na imprensa, o episódio foi lido como um exemplo de integração bem-sucedida. Outros entenderam que identidades herdadas continuam influentes mesmo depois de uma vida inteira inserida em outra cultura. Joel Halldorf, colunista do jornal Expressen, usou o termo “Islã azul-amarelo” para comentar o caso e definir uma condição ao mesmo tempo muçulmana e sueca.

Mas nem todos ficaram convencidos. Muitos questionaram por que um jogador convocado para representar a Suécia, e autor do gol mais importante de sua carreira até aqui, tomou tanto cuidado ao comemorar. Houve, ainda, quem destacasse a ironia no fato de Ayari vestir um uniforme marcado pela tradicional cruz escandinava — um dos símbolos mais associados à herança cristã do país.

Irmãos e adversários em campo

A verdade é que o caso de Yasin Ayari certamente não será o último. No mundo do século XXI, principalmente na Europa, os critérios de nascimento, etnia, religião, cidadania e sensação de pertencimento já não coincidem há algum tempo.

Não à toa, a própria Copa produziu histórias parecidas em edições anteriores. Em 2022, por exemplo, o suíço Breel Embolo marcou contra Camarões e também se recusou a comemorar, em respeito ao país onde nasceu antes de migrar para a Europa.

Um caso mais antigo, porém não menos emblemático, é o dos irmãos Boateng: Jérôme e Kevin-Prince, nascidos em Berlim, do mesmo pai ganês e mães alemãs diferentes. Ambos se formaram nas categorias de base da Alemanha, mas trilharam caminhos diferentes.

Jérome seguiu na seleção alemã e foi campeão do mundo em 2014, enquanto Kevin-Prince decidiu representar Gana — e os dois já se enfrentaram em duas Copas.

Neste ano, a situação mais curiosa é a do atacante americano Folarin Balogun. Filho de nigerianos radicados na Inglaterra, ele nasceu em Nova York porque sua mãe grávida foi impedida de embarcar de volta para Londres depois de uma visita aos EUA.

Balogun cresceu na Inglaterra, foi formado nas categorias de base inglesas e nunca viveu nos Estados Unidos. Ainda assim, ele diz se orgulhar de ser cidadão americano e hoje é um dos principais nomes da seleção dos EUA.

Mas nem sempre esse tipo de mistura termina em discussões “civilizadas” sobre multiculturalismo. Em 2018, Mesut Özil, filho de imigrantes turcos e campeão mundial pela Alemanha, foi duramente criticado após posar para uma foto ao lado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan.

A onda de críticas precipitou a aposentadoria de Özil da seleção. Ao fazer o anúncio, ele disse se sentir estrangeiro no próprio país e eternizou uma frase que passou a ser citada no debate europeu sobre imigração e integração: “Sou alemão quando vencemos e imigrante quando perdemos”.

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noticia por : Gazeta do Povo

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