A rainha inconteste dos ecossistemas brasileiros do presente já era majestosa dezenas de milhares de anos atrás, mesmo tendo de competir com dentes-de-sabre e matilhas de grandes cachorros-do-mato para capturar preguiças-gigantes. Segundo um novo estudo, a primeira e única onça-pintada (Panthera onca) abatia os megamamíferos do Pleistoceno (a Era do Gelo) com a mesma competência que lhe permite capturar antas e capivaras no Pantanal ou na Amazônia de hoje.
“Eu vejo que a onça continua basicamente com o mesmo tipo de nicho e não mudou tanto”, contou-me o paleontólogo Mário Dantas, do Laboratório de Ecologia e Geociências da UFBA (Universidade Federal da Bahia). “Ela tinha como opções outros tipos de recursos alimentares, que hoje não existem mais, e por isso podia chegar a tamanhos maiores. Com a extinção da megafauna, o dente-de-sabre, que era especialista em capturar os maiores mamíferos, desapareceu, enquanto as onças diminuíram um pouco de tamanho e conseguiram sobreviver.”
Pistas que corroboram o cenário descrito por Dantas acabam de sair no periódico especializado Ichnos. No artigo, assinado pelo pesquisador da UFBA junto com colegas de outras instituições brasileiras, como a Universidade Federal de Pernambuco e a PUC de Minas Gerais, a equipe analisa marcas um bocado suspeitas nos ossos de duas espécies da megafauna da Era do Gelo.
Os bichos em questão são a preguiça-gigante Ahytherium aureum, que talvez alcançasse meia tonelada quando viva; e outro herbívoro ainda mais esquisito e sem qualquer parente próximo na fauna atual, denominado Xenorhinotherium bahiense, com quase uma tonelada. O nome científico da segunda espécie diz quase tudo: traduzindo da mistura de latim e grego, estamos diante de uma “besta de nariz estranho da Bahia”.
Trata-se de um membro do grupo das macrauquênias, tradicionalmente descritas como semelhantes a lhamas com tromba, embora algumas reconstruções mais recentes tenham minimizado o apêndice nasal, trocando-o por uma espécie de calombo inflável igualmente esquisito.
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Tanto um exemplar de X. bahiense achado no interior pernambucano quanto o da preguiça-gigante, encontrado na região central da Bahia, têm perfurações nas patas da frente. Após uma detalhada análise comparativa, levando em conta a dentição de várias espécies de carnívoros e outras possíveis causas (buracos feitos por larvas de insetos, por exemplo), os paleontólogos concluíram que os furos muito provavelmente foram feitos pelos temidos dentes de uma “pintada” do Pleistoceno.
Não pense, porém, que a capacidade de abater os megamamíferos de então significava vida mansa para as onças. No mesmo estudo, a equipe da UFBA e seus colegas analisou dois crânios pleistocênicos dos grandes felinos achados numa caverna baiana, e eis que acharam… furos muito semelhantes aos dos herbívoros da megafauna. Tudo indica que combates mortais estavam acontecendo também entre as “pintadas”, talvez numa disputa por presas ou por parceiros sexuais.
Sinto comichões quase físicos na imaginação ao pensar como seria ver um animal tão familiar no mundo de gigantes da Era do Gelo. Que a resiliência das onças ao longo das eras não seja jogada fora à toa justamente pela nossa imprevidência no século 21.
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noticia por : UOL








