Sambas de Paulinho da Viola acompanham memórias felizes

No carro, ouvindo “Meu Mundo É Hoje”, do gênio Wilson Baptista, inconfundível na voz de Paulinho da Viola, tive a ideia desta coluna. Era fim de noite e o trânsito se arrastava na saída do aeroporto de Guarulhos para casa, depois de nove meses longe do Brasil. Contemplativa, dentro do carro o tempo tinha outra velocidade, a mesma de um samba que não envelhece, que anda com o vagar de quem já aprendeu que a pressa é inimiga da cadência.

“Eu sou assim, assim morrerei um dia/ não levarei arrependimentos, nem o peso da hipocrisia/ tenho pena daqueles que se agacham até o chão/ enganando a si mesmo por dinheiro ou posição / nunca tomei parte desse enorme batalhão/ pois sei que além de flores nada mais vai no caixão.”

Meu pai, que tinha essa música como lema de vida, foi estivador do porto de Santos. Ali, no apartamento térreo do Canal 5, o samba entrava com a maré e não saía mais. Ele tinha uma coleção única de vinis, que começava a esquentar o som pela manhã e ia noite adentro. Com seu reco-reco, tirava sarro de que era sambista, arriscava passos desengonçados e tentava fazer seu partido alto, levando a mim, minha mãe e meus irmãos às gargalhadas. Os clássicos sambas de Paulinho são companhia dessas memórias felizes.

Já em outros momentos, meu pai ouvia seus vinis sozinho na sala com a luz apagada, mergulhado em alguma lembrança distante que não sabíamos qual era. Paulinho, ali, também era companhia.

Trinta anos depois, quis o destino que eu, filha daquele estivador, tivesse a honra de receber o artista no palco do Pina Ball, o baile da Pinacoteca. Ele chegou com o violão e nós ficamos um tanto tímidos. Ele, pela simplicidade que acompanha a realeza. Eu, por ser fã demais. Sentado num banquinho, Paulinho cantou e o povo do salão dançou e ouviu seus clássicos que atravessam décadas: “Coração Leviano”, “Timoneiro” e tantas canções que ele compôs e gravou, ou que visitou de outros compositores.

Filho de Benedicto Cesar, violonista do lendário Época de Ouro, e de Paulina Batista, cuidadora de pessoas com necessidades especiais e jogadora de futebol, Paulinho é filho de peixe: um menino que brincava com violão e futebol de botões; que sonhava em jogar bola e cantar.

Na sala de casa, sentado aos pés do pai, acompanhou a visita de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Tia Amélia e tantos outros que construíram a música brasileira. O choro, o samba, o partido alto eram o ar que se respirava. O destino de estar junto a gigantes da ancestralidade brasileira o acompanhou durante a vida, como quando subiu aos palcos durante anos com Clementina de Jesus, a rainha Quelé, a quem segue homenageando até os dias de hoje, ecoando o canto dos ancestrais.

Logo moço, Paulinho começou a viver da música. No Zicartola, recebeu seu primeiro cachê das mãos do próprio mestre Cartola, voz imemorial da Estação Primeira de Mangueira — escola para a qual compôs, em 1968, junto ao amigo Hermínio Bello de Carvalho, o samba “Sei Lá Mangueira” —hino cantado desde então e que continuará sendo entoado enquanto a verde e rosa existir.

Mas é na Portela que mora o coração de Paulinho. Imagine: só os grandes da história podem compor hinos para escolas diferentes. E Paulinho fez, honrando sua missão de vida junto à agremiação de Oswaldo Cruz. Era uma responsabilidade e tanto, pois, depois daquela canção para a Mangueira, o hino para a Portela haveria de ser histórico. Esse dilema —que para ele deve ter sido angustiante— tornou-se um presente para nós quando do lançamento, em 1970, da música que trouxe a alvorada para a majestade do samba. “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” mexe com nossos corações até hoje, um sucesso de dez em cada dez rodas de samba.

Entre o amor pela música e por sua família, entre o tamborim e a bola, Paulinho também dedicou sua vida a uma grande paixão: o Clube de Regatas Vasco da Gama, time de futebol que faz inveja a todos os outros por ter sido pioneiro na luta antirracista no esporte e também por contar com um dos mais ilustres torcedores. Paulinho da Viola um dia foi fã do goleiro Barbosa, do atacante Ademir Menezes e de craques dos anos 1950 e 1960. Foi fã e amigo de Roberto Dinamite e de tantos que vestiram a camisa do Vasco. A arquibancada e a roda de samba se encontram no mesmo chão: o da reverência, prática comum a quem, no nosso povo, carrega uma coroa.

A propósito, onde quer que esteja, dedico este texto a meu pai, um de seus maiores fãs. Seja ao voltar para casa, seja ao ligar a vitrola numa tarde de domingo, a música de Paulinho o traz de volta. Volta a maré, volta o porto, volta o abraço. É por esses momentos que, além de admiração, sinto por esse gênio da música brasileira uma imensa gratidão. Vida longa a nosso mestre Paulinho da Viola!


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noticia por : UOL

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